O OUTRO LADO
O ARTESÃO HERBERTO
1. “O trabalhador é digno do seu alimento”; e, noutro lugar: “aquele que toma o arado e olha para trás não serve para o reino de Deus”. Isto disse o Menino Jesus quando cresceu e vem, por esta ordem, nos evangelhos de Mateus e Lucas. “Será que Deus não consegue compreender a linguagem do artesão?”, interroga, porém, Herberto Helder, no primeiro dos poemas que acompanham “Lapinha do Caseiro” (Assírio & Alvim). O belo livro reproduz obras de um artista encantador, Francisco Ferreira, madeirense do século XIX, cuja criatividade o manteve miraculosamente vivo. Nasceu em 1848 e faleceu no ano de 1931. A obra legada salvou-o da infausta morte: ele regressa e impõe-se, graças aos barros pintados, que Ricardo Jardim fotografou. “...A substância de um homem e de uma estrela; a mesma./ O poder de criar a canção, isso”, continua Helder e aponta “a terra que se mistura com o sangue sob as unhas”. Discursa sobre os estupendos trabalhos de Francisco Ferreira, afinal, seu bisavô. E, alertados pelo poeta, sucede levarem-nos, luminosos e frágeis, à interrogação: Deus ouve-nos, de facto? Vê-nos? Interessamo-lo, sequer?
2. “... crua artesania, e ouço na rádio Bach, meu Deus, e Haendel (...) o mundo é um caos sumptuoso –este é o segredo:/ música, e eu estou bêbado e é tão amargo o tempo,/ tão irrevocável” –sempre Helder, o artesão genial, que procura, como o bisavô, outra maneira. Acompanho a sua poesia, desde “O Amor em Visita” (1958); de “Os Passos em Volta” (1963), onde li: “Precisamos é de ser simples; partir, beber, arranjar companheiros na Malásia, na Turquia, na China.” O que fez o poeta, na esperança de surpreender os deuses.
O ARTESÃO HERBERTO
1. “O trabalhador é digno do seu alimento”; e, noutro lugar: “aquele que toma o arado e olha para trás não serve para o reino de Deus”. Isto disse o Menino Jesus quando cresceu e vem, por esta ordem, nos evangelhos de Mateus e Lucas. “Será que Deus não consegue compreender a linguagem do artesão?”, interroga, porém, Herberto Helder, no primeiro dos poemas que acompanham “Lapinha do Caseiro” (Assírio & Alvim). O belo livro reproduz obras de um artista encantador, Francisco Ferreira, madeirense do século XIX, cuja criatividade o manteve miraculosamente vivo. Nasceu em 1848 e faleceu no ano de 1931. A obra legada salvou-o da infausta morte: ele regressa e impõe-se, graças aos barros pintados, que Ricardo Jardim fotografou. “...A substância de um homem e de uma estrela; a mesma./ O poder de criar a canção, isso”, continua Helder e aponta “a terra que se mistura com o sangue sob as unhas”. Discursa sobre os estupendos trabalhos de Francisco Ferreira, afinal, seu bisavô. E, alertados pelo poeta, sucede levarem-nos, luminosos e frágeis, à interrogação: Deus ouve-nos, de facto? Vê-nos? Interessamo-lo, sequer?
2. “... crua artesania, e ouço na rádio Bach, meu Deus, e Haendel (...) o mundo é um caos sumptuoso –este é o segredo:/ música, e eu estou bêbado e é tão amargo o tempo,/ tão irrevocável” –sempre Helder, o artesão genial, que procura, como o bisavô, outra maneira. Acompanho a sua poesia, desde “O Amor em Visita” (1958); de “Os Passos em Volta” (1963), onde li: “Precisamos é de ser simples; partir, beber, arranjar companheiros na Malásia, na Turquia, na China.” O que fez o poeta, na esperança de surpreender os deuses.
Nós é que temos dificuldade em ouvi-o. Vivemos com muito ruído à nossa volta.
ResponderEliminarE quando só se fala, quando só se fazem perguntas, sem prestar o ouvido às respostas, parece-nos que Ele nos não entende.
Tudo à nossa volta é uma resposta, adequada às nossas perguntas.