terça-feira, 31 de março de 2009

O dia de hoje...


A notícia mais importante talvez seja a seguinte: cerca de 600 africanos desapareceram em frente das costas italianas. Naufragaram, afogaram-se. Vinham, em jangadas, à procura de uma vida melhor -de trabalho e comida- nesta Europa, onde nós vivemos e, também, procuramos trabalho e comida. Isso -a nossa crise e a nossa insegurança, o nosso desespero crescente- não poderá parar a imigração –os africanos morrem de fome, aos milhões. Nem apagará a nossa responsabilidade. Nem justificará a nossa indiferença. Começo pela indiferença: se a calamidade envolvesse 600 europeus, a nossa imprensa, nós próprios, dedicar-lhe-íamos toda a atenção e prantos. Os jornais, as televisões enviariam, para o local, centenas de jornalistas. Mas a morte macaca de milhares de africanos já passou ao corriqueiro: ao costumeiro. É um crime, é o exemplo da sociedade desumanizada, imoral, do lucro, do homem-máquina, do egoísmo, que criámos e em que consentimos –de que somos responsáveis. África é um continente abandonado. Também é um continente onde, sem escrúpulos, os grandes grupos económicos e os aventureiros com algum dinheiro, vindos do primeiro (e segundo) mundo, se aplicam a refazer e reinstalar o neocolonialismo. Vivi 5 anos em África, vi com os meus olhos. Aqui lhes deixo um exemplo repugnante, infame, e que, se calhar, desconhecem: grandes grupos, europeus, norte-americanos, asiáticos, compram centenas e centenas de milhares de hectares, em África, exploram o que a terra dá, recorrendo à mão de obra local, muito mais barata, e levam para casa e comerciam os bens das terras que roubaram. Enquanto o africano morre à fome. Tudo isso deveria ser insuportável, mas suporta-se. Pior: ignora-se. O encolher de ombros afasta de nós pensamentos incómodos. As vítimas da nossa sociedade monstruosa atiram-nos à cara os nossos crimes -morrendo, é certo... Assobiamos para o lado, depois de duas ou três lágrimas crocodílicas. Até quando?

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