domingo, 15 de março de 2009

Alentejo Esquecido


1. A identidade de uma terra é a sua Cultura. Já o sublinhei (inutilmente?), a propósito do estranho caso do Sr. Casimiro e da sua Papelaria em morte cataléptica (oxalá!), na cidade da Guarda. O Alentejo, com as Beiras e Trás-os-Montes, é um dos sobreviventes do Portugal que foi. Nunca lhe faltou quem o cantasse. Uma dessas vozes trago, hoje, aqui: Noel Teles e o romance “Terra Campa”. Data de 1947 (de há 62 anos). Roger Martin du Gard, o autor da saga admirável “Les Thibault”, distinguia “a Arte que é actual e a que é humana”, realçando a segunda, por eterna. É o caso de “Terra Campa”. Reli o romance, deslumbrado, os olhos a abrirem-se-me para uma realidade empolgante. Noel Teles deixou um romance ímpar –e é isso que eu quero saudar e recordar. Na garra, na força da linguagem, na poesia, na capacidade de fixar e transmitir a paixão e drama de personagens em carne viva –não deve nada a ninguém. O Alentejo e a nossa Cultura é que lhe devem o haver ele roubado à erosão do tempo um mundo fabuloso: dos ganhões e malteses, dos ratinhos, heróis anónimos da terrível luta pela vida, em pleno latifúndio.

2. Há coisas imperdoáveis e que acontecem nos nossos dias do descartável e do consumo renovável: suicidar-se o homem, virando as costas à raiz. Entregando-se à incultura. Exibindo a prosápia imbecil de ignorar o passado. Nada se constrói sobre o nada, senão o vazio. Eis o que explica que esteja esquecida “Terra Campa”, jóia romanesca, e enterrada, perdida a sua seiva fantástica. No entanto, leitor, basta abrir o livro: ele tratará de si. Mas onde pára? Esqueceram-no? É urgente reeditá-lo. Oxalá os herdeiros de Noel Teles me oiçam...








1 comentário:

  1. Leiam "Alentejo em Carne Viva", da Papiro Editora, editado em Dezembro de 2009. Pode ser comprado por 7,50 € em www.livrosnet.com

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