quarta-feira, 18 de março de 2009

O Canto do Galo

“Má altura!...” Olhou os turistas, com as camisas coloridas e os bonés de pala, suados e atarefados. Disparavam as máquinas fotográficas e consultavam os guias. “A indústria do século. Man Rays, um milhão! E de todas as cores: os crustáceos nórdicos, os leitõezinhos alemães, os japoneses amarelos...” Aquela era a Roma bastarda. Pintores e desenhadores negociavam. A meio da praça, vendiam-se bugigangas e cachecóis desportivos. Enzo e Valentina surgiram detrás da fonte de Bernini e acenaram-lhe. Sorriam um sorriso forçado. “Não lhes agrada. Disfarçam mal. E ela a reboque...” Quando chegaram, estendeu o livro.
-O catálogo do Pasmore.
-Em Veneza? No Palácio Grassi?
-De onde é que eu venho?! No Palácio Grassi, pois então! Não merece?
E apontou Valentina.
-Ela que o diga...
-Eu?
-És especialista.
-Que exagero!
-E a Simona? -perguntou Enzo.
-Ficou lá, a meditar...
-Em quê?
Luís abriu os braços:
-Na vida!
Enzo deu uma gargalhada:
-A terrível angústia existencial! Coitadinha... Nós largamos isto para a semana.
Antes, após a febre contestadora e a militância política, escolhiam a Índia, o Nepal e não riam de Simona. Agora, preferiam a Sardenha, a vivenda nos arredores de Alghero. Luís espreitou-o e disse adeus ao senhor Bocacci, que tirava o capacete e arrumava a moto à porta de casa.
-O Bocacci é único! Sobrevive a tudo!
Lembrava-se da mãe, à janela do andar de cima, debruçada sobre as sardinheiras que enfeitavam o peitoril, o cabelo branco e o vestido preto, da mulher morta e dos filhos, que tinham crescido.
-Resiste a tudo, ele e a Navona aguentam estes bárbaros!
-É verdade! –concordou Valentina.
E acrescentou:
-Vem connosco, Luís, a Sardenha é linda!
-Eu sei... Vou para outro sítio...
-Para onde?
-Para longe.
-Eles estão interessados? –interrompeu Enzo.
-Nas cerâmicas? Com certeza.
E explicou que os comerciantes aceitavam comprar as peças da fábrica da Marinha. Valentina começou a folhear o catálogo e Luís mudou de conversa:
-...São borrões de tinta e linhas, manchas de cor e, depois, o branco, que pouco nos oferece ou só o que tem: a ilimitada possibilidade. Resta-nos agarrarmo-nos às cores, a esses pontos e espaços coloridos, ainda que circunscritos, mas, com o peso de quem lá pôs as mãos, síntese ou forma de resistir à confusão... Não achas?
-Acho...
-Eh! Pá! Grande discurso! Devias ter sido tu a escrever o prefácio! -disse Enzo.
-Quanto é que pagam?
-Não sei. Olha que é bastante!
-Estou a brincar. Os meus catálogos são comerciais. O Salvi é que os avalia...
Os negócios herdados eram um pretexto, a maneira de vencer a inquietude que o roía. Ah!, essa não o largava, nem descansava nunca. Tinha compensações: estar ali e ver Valentina, a desculpar-se da casa da Sardenha e a tentar parar a vida. A tarde foi morrendo e o ocre dos prédios ressaltou, doce, repousante. A brisa ligeira, o ponentino, percorreu a praça e aliviou as almas. Alguns turistas deixaram-se ficar nas esplanadas e Luís sentiu-se lesado: “Não percebem nada, cumprem obrigações...” A verdade é que também ele, às vezes, cumpria obrigações. “Que remédio!” –e tentou esquecer, entregando-se à beleza do instante.
Enzo tocou-lhe no braço:
-Há azar? Queres que eu telefone ao Salvi?
Luís abanou a cabeça, não queria, não tinha pressa, era um jogo.
-Deixa-os poisar...
Enzo levantou-se e chamou o criado.
-Vemo-nos em Outubro?
Antecipou-se-lhe:
-Eu pago. Desculpa a maçada...
-És sempre bem vindo!
Não era sincero, queria livrar-se dele.
-Eu fico -disse Valentina.
Enquanto o amigo se afastava, Luís comentou:
-Anda noutra.
Ela emendou:
-Agora, é assim...
-O quê?
-Ele, nós. Modificámo-nos.
-Modificámo-nos?...
Ela começou a falar:
-Não me sinto bem. Sinto-me dentro de uma caixa, que me atira de uma parede contra outra. E o pior é que as paredes me atraem.
Sorriu:
-Estão cobertas de anúncios luminosos... E eu corro atrás deles, mas não entro lá dentro, deixo-me queimar nas luzes. Não agarro nada e não saio da caixa...
Procurou animá-la:
-E se fôssemos ao bar da Roberta?
Atravessaram a praça, evitando olharem-se.
-Tenho vergonha, Luís... Sinto-me desonesta...
-Desonesta em quê?!
-Em tudo.
-Que disparate! És masoquista?
Valentina encolheu os ombros:
-É o que penso.
E, depois, sem convicção:
-Não ligues, sempre fui uma exagerada.
Continuaram até ao Campo dè Fiori, à Roberta, calados, constrangidos. Encostada ao balcão de zinco, ela repetiu:
-Agora, é assim...
Não queria alimentar-lhe a doença –porque ela estava doente. O cansaço que via no seu rosto afligia-o: ela sofria. “De facto, não somos os mesmos!” E a consolá-la, ou a sacudi-la, lembrou-lhe:
-Precisas de descanso e tens a tua Sardenha!
Ela retorquiu, impaciente:
-Não queres perceber? Estás satisfeito? Tu e o Enzo podem estar contentes?
E foi ele quem perdeu o pé e defendeu-se:
-Não te acomodaste?
-Foges, Luís...
-Talvez. E depois?
O Bar enchera-se. Roberta espreitava e servia os clientes, entendia tudo, a sorrir, irónica. Há tantos anos que ele a conhecia! Antigamente, simples, familiar, o Bar era outra coisa. Roma era outra coisa.
Valentina teimou:
-Não os vês? Olha isto! Olha esta cambada. Que procuram? Gastar dinheiro, fingir que são artistas?
-E tu?
-Essa é a desgraça! Espalhei-me... Esqueci-me de querer. Fiquei igual a eles!
-É natural.
Ela engoliu em seco, empalideceu. Os lábios tremiam-lhe. E limitou-se a dizer:
-Sim, a nossa comédia acabou. Resta-nos...
-O que nos resta?
-Conformar-nos. Ninguém se ocupa do mundo!
E riu muito alto, um riso estridente. Os outros olharam e baixaram a voz. “Ri de nós os dois, ri de todos.”


À saída, Valentina apoiou-se em Luís. Bebera demasiado. Uma mulher alta, forte, que se vestia com cuidado e descurara a atitude e se abandonava. Ele tinha dificuldade em conduzi-la. Obrigou-o a parar e apontou a estátua de Giordano Bruno:
-Lembras-te?
E sem esperar resposta:
-Em setenta e cinco, viemos ao enterro do Pasolini! Lembras-te das bandeiras vermelhas? Dos nossos gritos?!
-Lembro. Nesse tempo...
Em 1975 -há mais de vinte anos-, à volta da estátua, juntavam-se vagabundos e marginais: aqueciam-se, no Inverno, com os caixotes que sobravam do mercado da manhã e eles queimavam. O Farnese, o cinema de ensaio, era quase de graça. Nos bares, comia-se e bebia-se pelo preço da chuva. Agora, a paisagem mudara. “Menos séria”. E, depois, riu-se da ideia: o que tinham de sério os vagabundos e os marginais? Ele mesmo e as ilusões de então? Aquela gente, sentada às mesas dos restaurantes enfeitados ao modo da antiga Roma, respirava bem-estar, com um toque de falsa boémia. Não exigiam mais. E por que haveriam de exigir?
-As bandeiras vermelhas? Ora, menina! Isto é bem bonito.
Valentina não ignorou o sarcasmo.
-Nesses anos lutávamos!
E espicaçou-o:
-Combatíamos! Lembras-te?!
Brilhavam-lhe os olhos. “Está indignada...”
-Sim..., lembro-me –disse, a sossegá-la.
E, a certa altura, teve medo: oscilava. Agarrou-a com força.
-Cuidado!
Não perdera a consciência. Indefesa, olhou-o, com humildade canina:
-Estou triste, Luís. Muito triste...
Não quis ouvir e interpelou-a, secamente:
-Vamos para casa?
Pareceu-lhe que se lhe chegava mais e que a boca se oferecia:
-Vamos...
Ele hesitou. O que é que ela julgava? Isso era dantes. E, no meio do embaraço, divertiu-o a ideia de que também isso era dantes: dormirem juntos.
-É muito tarde! Daqui a pouco canta o galo...
Valentina libertou-se, fitou-o, desiludida, refém da hipocrisia que a atormentava, e as palavras que lhe atirou feriram-no, doeram, não podia escapar-lhes:
-O galo já cantou, meu querido!
Baixou os olhos, desarmado:
-Anda...
Ela vivia perto. Quando se despediram, beijou-a na face:
-Boa noite.
Encostou-se à ombreira e esboçou um gesto. Deixou cair o braço. Viu-a acender a luz e subir as escadas. A saia justa prendia-lhe as pernas, o corpo não queria obedecer. E reparou que se transformara e ele com ela. Tinha sido um disparate vir a Roma.


Girou pelos sítios do costume, à espera que as horas passassem. Não lhe apetecia voltar ao hotel. O movimento das pessoas, nas ruas estreitas, confortava-o. Habituara-se àquele ruído, ao fluxo colorido e vário, aos risos, às vozes, e deixava-se envolver. Acalmava. Parou e acendeu um cigarro. Repousava de quê? A sua vida dependia de si, mais ou menos intensa, ele marcava-lhe o ritmo. Não tinha problemas, nem de dinheiro, nem de amor. E, no entanto, fugia, a proteger-se. Não o deixavam gozar a liberdade. Apeteceu-lhe sacudir tudo, perder-se no meio daquele mundo, anónimo. “Desligo o telefone e fico aqui!” Se ficasse, viriam ter com ele ou seria ele a procurá-los. Não sabia governar os dias, ia ao acaso: era um diletante. Dissera-lhe o pai, porque ele se recusara a trabalhar na fábrica e invocara os estudos e a necessidade de viajar. E acrescentara, resignado: “Ao menos vê lá se isso te serve, se vendes alguma coisa...” Não lhe servira para mais nada, fora as experiências e as emoções, que se repetiam e resvalavam para a monotonia. “A insipidez do diletantismo...” A expressão magoava: sempre receara que se cumprisse. No entanto, arriscara. Mas a angústia, que se sobrepusera à insatisfação, roía-o. “Que estupidez!” As contas à vida não batiam certas. E a inquietação arrastava-se, avolumava-se. A agressividade, indomável, aumentava. Raiva surda. Contra quem? Não quis saber. Espreitou à volta, receava que adivinhassem e troçassem dele, clandestino, sem eira, nem beira. Um solteirão? E depois? Não era o único fugitivo! Enzo e Valentina juntavam as malas e iam para a Sardenha. E o que deixavam atrás? A mesma monotonia que o oprimia e que reencontrariam na ilha. A decadência que o chocara, na Navona. Tinham quase chegado a meio do caminho. E pensou: “Haverá outra oportunidade?” A decadência era aquilo: o conformismo, a ambiguidade das relações. “Amigáveis”. Calculadas, consentidas -em quanto toleravam uns nos outros. A paixão morrera. Pasmore, o catálogo, as palavras de Valentina, medidas e convencionais, doseadas, moderadamente excêntricas. Os cuidados de Enzo, sempre atento às oscilações da bolsa. E ele era melhor? Não era. A sua vantagem residia no dinheiro: nascera rico. Nunca perdera a estabilidade. Que arriscara, realmente? Nada. E o que chamava a fuga de Enzo e de Valentina diferia da sua, apenas, nisso: agarravam-se ao conforto de que ele usufruíra. O dinheiro chegara-lhe, sempre. À frente, recortou-se a porta do Hotel, o átrio iluminado.

***

No quarto, afastou a cortina da janela e olhou as estrelas, que piscavam, as sombras dos telhados e dos campanários, as linhas suaves da Roma que traíra. “É tão bonito!”, exclamou, deslumbrado. A ferida abriu-se e a revolta soltou-se de onde a prendera. Subiu-lhe um calafrio: “A vida não merece os tratos que lhe damos!”

Serra de São Mamede, Maio de 2005













Sem comentários:

Enviar um comentário