domingo, 12 de setembro de 2010

Voltar ao quê?

Que espera os jovens? Será proibido amar?


Está aí Setembro. É o regresso, a que chamam “rentrée”, pois adoram inventar o “fino” e cultivam a estrangeirice. Escrevem “perspectivar”, em vez do correcto “prever” e chamam, ao Benfica, “campeão em título”, driblando o português “actual campeão”. Adiante. Voltamos e não sabemos o que iremos encontrar: tudo na mesma e o cepticismo –ou uma réstia de esperança? Calhou-me a luzinha do excelente artigo de Enzo Bianchi, em “La Stampa”, que diagnostica o morbo e sugere saídas: “o coração do homem trava a barbárie”: a injustiça quotidiana. Com ela dentro, sofremos um Agosto canicular, nada propício a recarregar baterias. A lucidez de Bianchi refrescou-me: é bom ver o ponto no i. Diz: “o interesse particular, a defesa da tribo, o lucro a curto prazo e o sucesso à revelia da justiça parecem ditar a lei, e o apelo ao sentido da responsabilidade é desprezado”. Na sociedade que matou a ética e o ideal e repôs o canibalismo, fala de deveres para com gerações de hoje e ontem. Luís XIV confiava ao dilúvio o roubo do seu reinado; a grande finança do séc. XXI consagra o Cifrão e a Hipocrisia. O nosso deserto aproxima-se, a passos largos, do filme de Monicelli, “L’Armata Brancaleone”, que fala do ano 1000 e de um bando de desventurados, nossos sósias, conduzidos por Vittorio Gassman. Gritamos e o eco não pia. Se é que gritamos. Se é que o mundo gelado do espectáculo oco não nos triturou e formatou e naufragámos em areias movediças. Ainda importam os sentimentos? Arrisco e cito outra vez Bianchi: “É do profundo no coração do homem que devemos recomeçar, porque, sem vida interior e densidade ética, nenhuma planta sobreviverá”.






Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 12/09/10

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