
“Estudei Arte porque pensei que devia escolher com o coração e não com o bolso. Às vezes penso que pode ter sido uma das piores decisões da minha vida.”
Ana González é a jovem espanhola que escreveu essa frase terrível.
Está no artigo do El País transcrito acima.
Afligiu-me. Arrepiou-me. Doeu-me. Porque é quase compreensível e quase aceitável.
Acabou o tempo da honestidade. A começar pela honestidade para connosco. E da coerência. E do altruísmo.
Nos últimos 30 anos, impôs-se a sociedade do dinheiro.
Não o neoliberalismo: a neo-escravatura.
Expulsou-se o ideal. Amordaçou-se a moral. Proibiram-se os sentimentos.
Cabe a cada um deixar-se escravizar e aceitar que o transformem em peça de máquina de fazer moedas –cujas se destinam ao dono da máquina, ao senhor do escravo.
A iniciativa pessoal, a verdade, a sinceridade não são deste mundo.
A fotografia que escolhi pertence a “La Bohème”, de Puccini: a história trágica de dois poetas pobres e de amores sem cobertura bancária.
Certamente, ainda acontecem dessas coisas –mas já pertencem ao sonho.
Seria loucura -um pecado mortal?- arriscar-se alguém a passar por elas, alguém que quisesse um destino e recusasse ser objecto de compra e venda... porque
“A vocação não tem lugar na nova sociedade.”
Assim falam aqueles que decidiram arrancar a alma à vida.
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