domingo, 26 de setembro de 2010

O pecado mortal




“Estudei Arte porque pensei que devia escolher com o coração e não com o bolso. Às vezes penso que pode ter sido uma das piores decisões da minha vida.”

Ana González é a jovem espanhola que escreveu essa frase terrível.

Está no artigo do El País transcrito acima.

Afligiu-me. Arrepiou-me. Doeu-me. Porque é quase compreensível e quase aceitável.

Acabou o tempo da honestidade. A começar pela honestidade para connosco. E da coerência. E do altruísmo.

Nos últimos 30 anos, impôs-se a sociedade do dinheiro.

Não o neoliberalismo: a neo-escravatura.

Expulsou-se o ideal. Amordaçou-se a moral. Proibiram-se os sentimentos.

Cabe a cada um deixar-se escravizar e aceitar que o transformem em peça de máquina de fazer moedas –cujas se destinam ao dono da máquina, ao senhor do escravo.

A iniciativa pessoal, a verdade, a sinceridade não são deste mundo.

A fotografia que escolhi pertence a “La Bohème”, de Puccini: a história trágica de dois poetas pobres e de amores sem cobertura bancária.

Certamente, ainda acontecem dessas coisas –mas já pertencem ao sonho.

Seria loucura -um pecado mortal?- arriscar-se alguém a passar por elas, alguém que quisesse um destino e recusasse ser objecto de compra e venda... porque

“A vocação não tem lugar na nova sociedade.”

Assim falam aqueles que decidiram arrancar a alma à vida.

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