quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Uma luz no deserto ou a morte da ética?

O deserto de Gobi



Ao post de ontem, acerca dos campos de concentração, escondidos no deserto de Gobi da China maoista, há que acrescentar o seguinte, creio, importante e matéria de análise:

o filme A fossa, de Wang Bing, apresentado, agora, no Festival de Veneza, foi realizado na China de hoje e baseou-se no livro de Yang Xian, Canto de mártires nos campos da morte da China de Mao, por sua vez publicado na China, em 2003.

Quer um quer outro dos autores ouviram sobreviventes dos campos de concentração maoistas.

Salta aos olhos que as autoridades não desconheceram nem uma nem outra das obras, não as censuraram e não as proibiram.

Por alguma razão.

Porque lhes interessa inquinar a figura de Mao? Porque lhes interessa afastarem-se dela? Ou porque alguma coisa mudou na realidade chinesa?

As autoridades viram-se obrigadas, por isto ou por aquilo, a consentir na publicação do livro de Yang Xian e no filme de Wang Bing. E não impediram os sobreviventes desses campos da morte de testemunharem nem, ao que consta, não os perseguiram por isso.

Sublinhe-se, no entanto, ou complementarmente, este depoimento do prórpio Wang Bing:

Hoje, o verdadeiro drama é que, ao silêncio continuado do Estado, soma-se a ignorância e a indiferença das gerações jovens”.

Assim, às probabilidades sugeridas acima para justificar a permissão estatal, deveremos acrescentar: protegido pelo seu grande, ainda que relativo sucesso (há tremendas diferenças sociais, na China), o regime deixou de temer a publicidade dos seus próprios crimes?

Devemos concluir: os fins conseguidos, mesmo imperfeitos, tapam os meios envenenados?

Pensa nisto e conclui, como entenderes.

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