óleo de Pierre BonnardJosé Régio escreve sobre seu pai, chegado à fase terminal de grave doença (“Páginas do Diário Íntimo”, INCM): “A um amigo confessou que quereria, ao menos, viver mais seis meses válido... para se despedir da vida!” A frase, quase infantil, dolorida, comovente, revela o homem que ele era: um apaixonado pelos dias. Régio sublinhou, noutras passagens, que o pai pedia, humilde, mas teimosa e esperançosamente, um bocadinho mais do encanto de estar vivo. Fora feliz. Conhecera a alegria evocada por Jean Giono no deslumbrante romance “Que ma joie demeure” ou por Bernanos em tantas páginas. De André Gide, deixo a seguinte frase, à meditação: “provavelmente não te surpreendes de estar vivo, não admiras como devias este milagre de viver”. Cito autores de França contra a maré deseducadora que baniu as humanidades do ensino e a lembrar a cultura onde os portugueses muito beberam e aprenderam, ao longo de séculos. E em nós penso. Chamou-nos Unamuno um povo de suicidas e outros dizem-nos “os tristes”. Não se desculpem com a crise! Sem dúvida, ela arrasa a alma. Mas, na Nápoles pobre, vi entusiasmo, riso, música e dádiva. Em África, o tal terceiro mundo, vi amor a tudo, nos olhos africanos, que ali mostram o coração aberto. O nosso monco caído não se resgatará? Aquilino acha-o beco sem saída. Não aceito. Há uma saída para tudo e a coçar as feridas deixadas por 800 anos de má administração e maus tratos, a raparmos a chaga dos complexos de inferioridade, transformando-nos em desconfiados, não vamos a lado nenhum. Que fazer? Abrir as janelas e dar um chuto nos velhos do Restelo, que nos moem e castram. Respeitar o dever da alegria!
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 19/09/10
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