sexta-feira, 3 de setembro de 2010

Questão de encontrar gente...

Clarice Lispector



Na autobiografia Clara Lispector, Uma Vida, de Benjamin Moser, Civilização Editora, obra interessantíssima que deve estar a ser lançada, encontrei palavras muito significativas de Clarice, em carta escrita, durante a viagem atribulada (1944), que a levou de regresso à Europa.

Clarice Lispector tem 24 anos e é, já, uma autora de sucesso, graças ao romance Perto do Coração Selvagem. Chegara ao Brasil, com 2 anos; nascera na Ucrânia; era, como toda a família, refugiada judia. Crescera no Brasil e naturalizara-se brasileira. Estudara, licenciara-se em Direito, exercera o jornalismo, casara com um diplomata brasileiro, que ia ocupar o primeiro posto no estrangeiro, junto do consulado-geral em Nápoles.

E, de Casablanca (‘bonitinho, mas bem diferente do filme Casablanca’), Clarice manda dizer ao grande amigo Lúcio Cardoso:

‘As coisas são iguais em toda a parte –eis o suspiro de uma mulher viajada. Os cinemas do mundo inteiro se chamam Odeon, Capitólio, Império, Rex, Olímpia; as mulheres usam sapato Carmen Miranda, mesmo quando usam véu no rosto. A verdade continua igual: o principal é a gente mesmo e só a gente não usa sapatos Carmen Miranda”.

A gente: na verdade de cada um, contra os sapatos Carmen Miranda ou apesar dos sapatos Carmen Miranda –essa realidade, esse tesouro íntimo, espiritual, Clarice tentará entender e expressar nos seus livros admiráveis.

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