sexta-feira, 26 de fevereiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Parte IIIª VII

'Nú de costas', óleo de Amedeo Modigliani (1884-1920)




Quase não se falaram, durante o regresso, ela com as flores presas das mãos, Andrea os olhos fitos na estrada.

— Desculpa. –disse Lorenza.
— O quê?
— Querer vir embora.
— Não faz mal. Eu também estou cansado
— Cansado?
— Sim. Sinto-me cansado de andar de um lado para o outro, de Treviso para Veneza e de Veneza para Treviso. Do consultório. Do hospital. Não vejo solução.
— Qual solução?
— Para não andar por aqui e ali, e não me decidir, e não ter um sítio onde estar tranquilo.
— Gostavas de viver em Veneza?

Perguntava se gostava de estar junto dela, todos os sinais ajudavam a esperar. Mas não dissera que era tarde de mais?

-Para Veneza? Tenho a minha casa em Treviso. E o Roberto? Veneza? Que disparate! É uma cidade morta.

Ela compreendeu: dizia-lhe aquilo porque a conhecera depois de se ter entalado em muitas coisas e a pele lhe ardia. Oferecera-se-lhe e não a quisera. Andrea não sabia viver com os outros, ou não a queria. Ignorara-a e empurrara-a e ela também se afastara. E tentou remediar:
— Hás-de encontrar uma solução.
— Com certeza!

Lembrava-se dela, ainda há pouco, deitada no sofá, os cabelos loiros e os seios por baixo da blusa, os bicos a levantarem o tecido, a boca vermelha, indecisa, fresca e húmida. “Só me apanhas, se eu quiser só se eu quiser...” Mas perturbava-o a sua presença e acariciou-lhe o braço.

— Andrea! — reagiu Lorenza e cruzou as pernas, chegou-se para o lado.
— Vê lá se sais pela porta.
— Não te preocupes! Se queres levar-me a casa, leva-me e não faças fitas. Hás-de encontrar a solução, não precisas de andar a brincar comigo.
— Não faço fitas nem ando a brincar contigo. Gosto do teu corpo, como tu gostas do meu. Ou não gostas? Meteste-me as mãos debaixo da camisa, enrolaste as pernas no meu colo, cheiraste-me como eu te cheirei. Passaste os lábios pela minha carne e eu fiz o mesmo. A tua carne, é salgada e doce, não desilude: está à medida.

Apareceu um camião, as luzes acesas no máximo, que os assustou. Foram, assim, calados e incomodados. Andrea procurara feri-Ia e Lorenza troçara dele. Talvez nenhum dos dois quisesse aquilo mas acontecera.

— És muito ordinário.
— Talvez.

Isso passou-se antes da história das amêndoas mas nunca se libertaram das palavras trocadas, as amêndoas não bastaram. Recomeçaram a evitar-se.

— Ele não acredita em mim. — disse à grega. — Acha que não preciso dele e me divirto com os amigos.
— Ele não é teu amigo? — respondeu Irene, que lhe agarrou a mão.
Lorenza retirou-a.
—É meu amigo e sou amiga dele mas anda sempre a fugir. Já quase não nos vemos.

E a grega, que dera pelo retraimento de Lorenza, aceitou ficar sem a mão dela:
— Olha que um te arrependes. Gostas do Andrea.
— Achas?
-Acho mas não te aflijas. Tudo passa. Se calhar, foste feita para outras coisas, casares e teres filhos e viveres uma vida segura. O Andrea, divorciado e com o filho, assusta-te.
—Assusta-me?! Enerva-me, queres dizer! Se gosta de mim, porque não me prende e me deixa fugir?

Não esqueceria o sorriso de Irene: frio e irónico: não lhe perdoava a fuga e desejava-lhe felicidade, incerta de que ela fosse capaz de a conquistar.

— Se gosta de mim, porque não foi mais longe?!
— Onde querias que ele fosse?
Lorenza não conseguiu calar:
— Até onde eu quisesse, até onde eu desejasse.
Mas reservou para si:
“-Até ao, meu coração, que estava à espera dele!”

Depois, durante os tais dias que se transformaram em semanas, lembrou-se, com amargura, do que dissera Irene:
“Casar-me, ter filhos, instalar-me na vida? Isso era o que eles queriam, os da minha família. E, um dia, ainda acabo assim. A culpa não é minha!”

A culpa era de Andrea, não soubera ajudá-la.
“Porque não me telefona? Não quer saber de mim!”
E se ele lhe respondesse:
“Absolves-te desse modo. Considerando-me um safado. É o que te resta, senão tinhas de me pedir que te recebesse e acalmasse a tua ânsia.”
“Já não serviria de nada!...” –consolou-se.

No Natal, Andrea telefonou-lhe:
— Boas Festas, bom Natal!
Ela agradeceu:
— Obrigada! Boas Festas!

E deixaram o ano passar, sem o festejarem juntos. Andrea soube que ela andava por sítios que não eram os dela. Disseram-lhe que Lorenza frequentava os bares de Cannareggio, até de madrugada. Tempos atrás, convidara-a para lá almoçar e ela recusara:
— Vamos a outro sítio, faz-me confusão esse bairro. Tem gente a mais!
Andrea reconhecera a burguesinha do Lido, desconfiada e convencional. Assim a julgava, às vezes.
— Está bem. Vamos, a outro sítio. Cannareggio, a mim, não me faz confusão nenhuma. Mas se queres...

Era um bairro tranquilo, a roupa pendurada das janelas, as osterie e a gente simples. Se não lhe servira, o que é que queria agora? Se a assustara o vaivém de gente remediada, as leitarias pequeninas e os excessos pacatos dos que saíam das tabernas ligeiramente desequilibrados e se cruzavam com os gatos e os cães em liberdade, aquele mundo onde não cabia a submissão aos preconceitos, que andava ali a fazer?

— Anda, por onde calha, com quem encontra...

Andava ao deus-dará? A retraída, a reservada, que escolhia os amigos, frequentava aqueles lugares? Juntava-se aos estudantes boémios que enchiam, à noite, os recantos de Cannareggio? Ela, sempre exigente, sempre distante, fechada no seu piccolo mondo? Que acontecera e como eram as suas noites perdidas? Gastava-as com aqueles estroinas, que deveria considerar vadios? Com os noctívagos e beberrões da Veneza humilde, gente que não era a sua, habituada a cruzeiros à Grécia? E Andrea tinha medo de saber como acontecera e com quem acontecia e, ao mesmo tempo, queria saber. Afastava o medo e a angústia imaginando o pior: ela, os olhos febris, desvairados, a rir para todos, a encostar-se-lhes e a pedir-lhes que lhe mexessem, a embebedar-se com eles. Tudo quanto lhe dera em Treviso a via dar aos outros. O bairro tornava-se num lugar imundo e Lorenza, numa desgraçada que sempre desejara isso: a promiscuidade.

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