quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Parte IIIª I c

...o mar da Grécia...




Lorenza punha no que dizia a habitual ironia e o desapego. Já esquecera , ou queria esquecer o que lhe dissera antes, “Se não te tivesse, não tinha nada”. E não mentira: através dele, tocaria coisas essenciais: o prazer, a companhia, os outros. Encontraria modo de vida, libertar-se-ia de dificuldades: Veneza, a família, o curso emperrado. Sentia necessidade de deixar Veneza.

Nunca coubera dentro de casa: pediam-lhe muito menos do que sonhara: que se formasse, casasse e tivesse filhos. Davam-lhe dinheiro e vestidos. O pai, Silvio Mander, filho de negociantes venezianos, casara com uma rapariga de Udine, Anna Cois, multiplicara os bens, construíra a casa no Lido e, agora, estava à espera que as três filhas casassem. Fazia, e fizera, o que achava que devia. Não lhe queria mal, era o ritmo da família. A mãe nunca vivera outro. Os pais de Ana Cois, donos de um pequeno hotel em Chioggia, perguntavam sempre pelos namorados das netas. As duas irmãs, Bruna e Donatella, aceitavam aquela vida. Nunca se dera muito com elas, eram mais velhas. Conhecera-lhes amigos, pouco mais. E até os amigos as haviam separado. Donatella era ciumenta, não perdoava à irmã ser mais nova e provocar um sentimento de protecção, Bruna agarrara-se à mãe e os amigos eram aqueles que lhe aconselhava: jovens licenciados, com futuro e dinheiro. Donatella casar-se-ia em breve, Bruna esperava, tranquila, não ia ficar solteira. Lorenza revoltava-se, quando pensava que teria de arranjar-se ou casar.

Arranjar-se, como? Não fizera outra coisa até agora: fingira que estudava, ignorara as irmãs, metera-se dentro do quarto ou andara a correr de um lado para o outro. Casar-se? Ir viver com Andrea? Aproveitar-se dele para sair do piccolo mondo, estreito, mesquinho? E refugiava-se no seu quarto, modo de aceitar o ritmo que lhe pedia pouco. Andrea exigia muito mais: que fosse viver com ele porque gostava dele.

E, bruscamente, perguntou-lhe:
— Há bocadinho disseste-me que me compreendias. O que é que tu compreendes?
Andrea, apanhado de surpresa, balbuciou:
— O que compreendo?... Compreendo o que tu queres.
— O que eu quero? Sabes lá tu o que é que eu quero!
E, quase em surdina:
— O que eu não quero é falar do que me incomoda...

Não queria aquela inquietação: uma pessoa a mexer dentro dela. E nunca teria a certeza de gostar de Andrea, não era justo aproveitar-se dele. Por isso, o sacudia. Andrea obrigava-a a acreditar em coisas que não queria aceitar: que as pessoas se abriam, se confiavam. Retraíra-se sempre diante dos outros. Eles eram como a casa do Lido: afogavam-na e não a levavam onde queria: levavam-na sempre perto de mais, porque não passavam daí e a assustavam.

Donatella, quando Lorenza voltara da Grécia e se preparava para ir à montanha, dissera-lhe:
— Só estás bem onde não estás! Nada te basta!
Dissera-lho, com o tom de troça que usava muitas vezes, sobretudo com ela, a preparar-se para sair. E, enquanto vestia o casaco, fixou-a nos olhos e acrescentou:
— Assim, nunca terás descanso. Arranja um homem! Ou, então, forma-te e vai à tua vida!

Durante a viagem, Claudio, um amigo, que a acompanhara, dissera-lhe, meio a brincar meio a sério:
— Tu fazes as coisas e, depois, parece que ficas zangada contigo. És capaz de ser doce, simpática e, depois, pões os pés à frente e não deixas que ninguém se aproxime. Olha lá: andas zangada com o mundo?

O barco tinha parado na baía de Simi, a ilha grega junto à costa da Turquia, e eles estavam deitados na ponte, lado a lado a olharem as casas brancas, as embarcações coloridas e as pessoas que andavam no cais.

— O que é que te falta? Eu não te chego?

Não lhe chegava e não lho dissera para não o magoar.
— Eu sou assim! Não te aflijas! Tem corrido tudo muito bem.


O que é que poderia ter respondido a Donatella ou a Claudio? Ela era assim. Talvez, na verdade, nunca estivesse bem onde estava, ou só estivesse bem consigo. A vontade de sair, de se libertar essa não a perdia; mas às vezes pensava que não havia no mundo ninguém capaz de a ajudar a libertar-se, ninguém capaz de compreender o que ela queria. E, então, mais valia enrolar-se, à espera que viesse alguma felicidade. Donatella queria que se transformasse, Claudio, que lhe agradecesse o que lhe dera e se lhe mostrasse feliz. Não podia deixar de ser quem era, nem mostrar-se feliz quando não se sentia feliz. Agradecer podia, mas a felicidade evaporara-se na ponte do barco, à frente de Simi, ela lembrava-se era do que não tinha. Nem ela sabia o quê.

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