quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

Nenhum crime cala o sonho porque a morte do sonho é a morte do homem***

..."sempre que um homem sonha/ o mundo pula e avança/ como bola colorida/ entre as mãos de uma criança" (António Gedeão)




Assim morrem os sonhos
por Manuel António Pina

Orlando Zapata Tamayo, operário, de 42 anos, pensava diferentemente do que pensa o seu governo. E dizia-o, o que, em Cuba (e não só), é coisa particularmente perigosa. Foi detido com outros activistas dos direitos humanos em 2003 e condenado a três anos de prisão por "desobediência", entretanto multiplicados por 12 (36 anos!) por persistir em "desobedecer" mesmo preso.


Morreu ontem, após 85 dias de greve de fome em protesto pelas torturas de que era vítima na prisão. Era um dos muitos presos de consciência que, segundo a AI, apodrecem em cadeias cubanas. A mãe, a quem foi entregue o corpo, conta que tinha as costas "tatuadas de pancada". Cuba é um problema que, como muita gente da minha geração, tenho comigo mesmo. Nos anos 60, quando o pesadelo soviético era mais que evidente, a Revolução Cubana iluminou de súbito o nosso sonho de uma sociedade livre e igualitária, e tanto desejámos esse sonho que aceitámos qualquer desculpa para as suas traições. Acordámos dele a custo para descobrir, como Sam Spade em "O falcão de Malta", de Dashiell Hammett, que é chumbo a matéria de que são feitos os sonhos.
***eu sei que o sonho será a última coisa a morrer em Manuel António Pina, para bem de nós que o lemos como quem recupera... o sonho; e sei que ele entende o meu título e tudo o mais...

transcrito, com a devida vénia, de Jornal de Notícias, 25/02/2010

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