óleo de Paul Delvaux (1897-1994)Sozinhos nunca ficariam. Tinham um passado e dentro gente. Sabiam coisas um do outro, mesmo as que tinham escondido. Irene, os amigos que os haviam acompanhado, a viagem de Lorenza à Grécia, Caterina e o quarto de Veneza, a ida a Burano, os almoços, os jantares, os passeios, os companheiros de Lorenza. em Pádua e no Brenta, a vida de Andrea, Luisa, Roberto, Treviso. Memórias. Sinais que pesavam. E, se traziam de volta o passado, as verdades e as mentiras, eram uma nuvem confusa. Não a queriam. Agora, estavam ali.
Um dia, cruzaram-se com Caterina.
— Olá! — disse ela a Andrea.
Fingiu que não a via e Lorenza apertou-lhe o braço:
— Olá! — disse ela a Andrea.
Fingiu que não a via e Lorenza apertou-lhe o braço:
— Não falas à tua amiga?
— Nem a vi.
“O que é que ela tem com isso? Que tem que se meter na minha vida? Nunca me contou nada da vida dela.”
— Nem a vi.
“O que é que ela tem com isso? Que tem que se meter na minha vida? Nunca me contou nada da vida dela.”
— Ai sim? Dantes, vias.
Andrea gostaria de lhe perguntar: “E tu não vias outras pessoas? Não andavas com outras pessoas? E não andas e vês, quando eu não estou?” Mas calou-se e continuou em frente. Que lhe contara ela da viagem à Grécia, de Pádua ou das excursões no Brenta? Dos passeios na Laguna? Não tinha nenhuma obrigação de lhe contar nada e ele não tinha obrigação de lhe dizer por que é que vira e agora não via Caterina. Mas queria saber. E talvez por isso se calara: custava-lhe magoá-la, dizer-lhe, por exemplo: “não é nada contigo!” ou “enganas-te, nunca me interessou Caterina”. Atraiçoá-la outra vez, já que o desejo dela era idêntico ao dele: mexer no que se esconde, possuir tudo. E Lorenza gostaria de saber, como ele gostaria de saber. Por que é que era amiga da grega e o que é que ela lhe dava? O que é que tinha ido fazer à Grécia? O que é que acontecera no Brenta? Com quem é que ela se encontrava em Pádua? Quais eram os colegas que preferia e por que é que os preferia? Por que é que lhe dissera tantas vezes que não podia encontrar-se com ele? Não lhe perguntava e ela não lhe perguntava aquilo que queria saber. Fingiam que não lhes interessava. Iam gozando o que tinham, livravam-se assim um do outro — e contemporizavam. Às vezes, entendiam que mais vale um pássaro na mão.
Ela telefonara-lhe e ele viera e, na esplanada no Paolin — na eterna esplanada do Paolin —, Lorenza sorria-lhe e imaginara, enquanto se dirigia para a mesa, o prazer que sentiria se lhe mexesse nos cabelos, no rosto, nas mãos mas logo se retraía e se impacientava, desconfiado de quem ela tinha ao lado — a grega. Valia a pena desejá-la? Sorria porquê? Porque o convencera a ir ter com ela? Troçava? E trouxera testemunhas que constatassem a sua superioridade? Ou queria que ele sentisse que não precisava dele, se arranjava com outros e o chamara por caridade: para ele aproveitar a sua companhia?
Pensava estas coisas Andrea, que também pensava outras. Ela abafava-o, não deixava respirar. Era ela quem não se mexia e não saía do jogo da cabra-cega. À noite, na casa de Treviso, acontecia-lhe olhar para as estrelas e pensar que o desatino de Lorenza era como aquilo: um mundo que lhe fugia, extravagante e inacessível. Também, que continuava a perseguir esse mundo, a ver se o apanhava, e não se curava disso. “Mas leva, certamente, a qualquer coisa ou eu não corria atrás dela. Leva, pelo menos, a isto: ando a correr atrás de qualquer coisa”
Afinal, aceitara o convite de Lorenza porque talvez fosse a maneira de se libertar. Se nunca mais a visse, ficava-lhe uma pedra na alma e punha-se a dar voltas e nunca mais decidia. Assim, ao menos podia olhar para ela, ver-lhe os limites, a pobreza, a hipocrisia e, se lhe apetecesse, desmascará-la até ela preferir deixá-lo em paz e desaparecer. Porque tinha sido com essa intenção que Andrea aceitara o convite: resolver dúvidas. Não se importava de perder Lorenza e de sacrificar o que o ligava a ela. Não tinha medo dessa dor, estava farto da outra, que era não ter nada senão aqueles encontros, telefonemas e poucas cartas e a esperança, irmã da hesitação.
Aconteceu isso aos dois no encontro em S. Stefano: confrontarem-se e saberem quanto ia durar. Aceitarem encontrar-se não era só desejo de estarem juntos, também, a vontade de se livrarem do problema. Tinham ido demasiado longe para que pudessem despir a sua relação como quem despe uma camisa. Se quisessem, tinham de a usar até ao fio. Queriam encontrar-se, a ver se acontecia alguma coisa.
Havia, também, outra esperança: que saísse, dali, o amor e ternura, que desejavam sentir um pelo outro — e o repouso que ambicionavam. Não, se importariam, apesar do sofrimento, se do, confronto, saísse a separação. Depois, respirariam melhor. E havia um acordo tácito, consentimento. Aceitavam que o encontro fosse modo de se medirem e verificarem o interesse que os ligava, amor ou fraqueza, busca da felicidade ou mero masoquismo. Talvez nunca o soubessem mas era a escolha deles.
Depois desse encontro no Paolin, voltaram a procurar-se. Lorenza telefonava-lhe insistentemente e Andrea respondia-lhe. Foi o tempo —o último— em que percorreram, freneticamente, Veneza. A necessidade nascia do pressentimento de que seria a última vez e, por isso, queriam confiar um ao outro o que não tinham confiado, antes que fosse demasiado tarde.
Um dia, Lorenza disse-lhe:
Andrea gostaria de lhe perguntar: “E tu não vias outras pessoas? Não andavas com outras pessoas? E não andas e vês, quando eu não estou?” Mas calou-se e continuou em frente. Que lhe contara ela da viagem à Grécia, de Pádua ou das excursões no Brenta? Dos passeios na Laguna? Não tinha nenhuma obrigação de lhe contar nada e ele não tinha obrigação de lhe dizer por que é que vira e agora não via Caterina. Mas queria saber. E talvez por isso se calara: custava-lhe magoá-la, dizer-lhe, por exemplo: “não é nada contigo!” ou “enganas-te, nunca me interessou Caterina”. Atraiçoá-la outra vez, já que o desejo dela era idêntico ao dele: mexer no que se esconde, possuir tudo. E Lorenza gostaria de saber, como ele gostaria de saber. Por que é que era amiga da grega e o que é que ela lhe dava? O que é que tinha ido fazer à Grécia? O que é que acontecera no Brenta? Com quem é que ela se encontrava em Pádua? Quais eram os colegas que preferia e por que é que os preferia? Por que é que lhe dissera tantas vezes que não podia encontrar-se com ele? Não lhe perguntava e ela não lhe perguntava aquilo que queria saber. Fingiam que não lhes interessava. Iam gozando o que tinham, livravam-se assim um do outro — e contemporizavam. Às vezes, entendiam que mais vale um pássaro na mão.
Ela telefonara-lhe e ele viera e, na esplanada no Paolin — na eterna esplanada do Paolin —, Lorenza sorria-lhe e imaginara, enquanto se dirigia para a mesa, o prazer que sentiria se lhe mexesse nos cabelos, no rosto, nas mãos mas logo se retraía e se impacientava, desconfiado de quem ela tinha ao lado — a grega. Valia a pena desejá-la? Sorria porquê? Porque o convencera a ir ter com ela? Troçava? E trouxera testemunhas que constatassem a sua superioridade? Ou queria que ele sentisse que não precisava dele, se arranjava com outros e o chamara por caridade: para ele aproveitar a sua companhia?
Pensava estas coisas Andrea, que também pensava outras. Ela abafava-o, não deixava respirar. Era ela quem não se mexia e não saía do jogo da cabra-cega. À noite, na casa de Treviso, acontecia-lhe olhar para as estrelas e pensar que o desatino de Lorenza era como aquilo: um mundo que lhe fugia, extravagante e inacessível. Também, que continuava a perseguir esse mundo, a ver se o apanhava, e não se curava disso. “Mas leva, certamente, a qualquer coisa ou eu não corria atrás dela. Leva, pelo menos, a isto: ando a correr atrás de qualquer coisa”
Afinal, aceitara o convite de Lorenza porque talvez fosse a maneira de se libertar. Se nunca mais a visse, ficava-lhe uma pedra na alma e punha-se a dar voltas e nunca mais decidia. Assim, ao menos podia olhar para ela, ver-lhe os limites, a pobreza, a hipocrisia e, se lhe apetecesse, desmascará-la até ela preferir deixá-lo em paz e desaparecer. Porque tinha sido com essa intenção que Andrea aceitara o convite: resolver dúvidas. Não se importava de perder Lorenza e de sacrificar o que o ligava a ela. Não tinha medo dessa dor, estava farto da outra, que era não ter nada senão aqueles encontros, telefonemas e poucas cartas e a esperança, irmã da hesitação.
Aconteceu isso aos dois no encontro em S. Stefano: confrontarem-se e saberem quanto ia durar. Aceitarem encontrar-se não era só desejo de estarem juntos, também, a vontade de se livrarem do problema. Tinham ido demasiado longe para que pudessem despir a sua relação como quem despe uma camisa. Se quisessem, tinham de a usar até ao fio. Queriam encontrar-se, a ver se acontecia alguma coisa.
Havia, também, outra esperança: que saísse, dali, o amor e ternura, que desejavam sentir um pelo outro — e o repouso que ambicionavam. Não, se importariam, apesar do sofrimento, se do, confronto, saísse a separação. Depois, respirariam melhor. E havia um acordo tácito, consentimento. Aceitavam que o encontro fosse modo de se medirem e verificarem o interesse que os ligava, amor ou fraqueza, busca da felicidade ou mero masoquismo. Talvez nunca o soubessem mas era a escolha deles.
Depois desse encontro no Paolin, voltaram a procurar-se. Lorenza telefonava-lhe insistentemente e Andrea respondia-lhe. Foi o tempo —o último— em que percorreram, freneticamente, Veneza. A necessidade nascia do pressentimento de que seria a última vez e, por isso, queriam confiar um ao outro o que não tinham confiado, antes que fosse demasiado tarde.
Um dia, Lorenza disse-lhe:
— Sabes o que é acordar com uma pessoa ao lado e não perceber o que é que ela está ali a fazer?
Confiava-se outra vez e, no fundo, talvez quisesse que ele compreendesse, finalmente, a sua dificuldade, a dificuldade que tinha em viver com os outros.
— Isso, não tem importância, também já me aconteceu.
— Isso, não tem importância, também já me aconteceu.
Já lhe tinha acontecido? Não admirava, ele era mais velho do que ela, o saco, a mochila dele, tinha de ser mais pesado. O que a surpreendia e chocava era Andrea, que deveria querê-la só para si, única, aceitasse o que lhe contara. Então não perguntava com quem tinha estado? Não perguntava quem era a pessoa que dormira com ela e quando acordara não reconhecera? Não sabia apreciar a verdade ou fingia que não percebia? Perguntara-lhe pela viagem à Grécia e ela iludira a resposta, não tinha acontecido nada, dissera, e agora, quando lhe abria uma janela, não ouvia. Sim, tinha dormido com pessoas que não reconhecia quando acordava! E por isso lhe estava a contar, queria que ele lhe explicasse por que lhe acontecera. Se gostava dela, aquele episódio não podia ser-lhe indiferente ou limitar-se a dizer-lhe que já lhe acontecera o mesmo.
— Alguma importância tem... — murmurou Lorenza.
Andrea apressou o passo, o que ela lhe confessara não lhe interessava. Não queria perdê-la. Mas a Lorenza que não queria perder era outra: a da gabardina branca, a do vaporetto e do cais da Accademia. Aquelas confissões afastavam-nos. A confissão que esperava era que lhe dissesse que o amava e que nunca amara assim ninguém. Aquela alma que se abria não era a que ele queria. E teve vontade de a magoar.
— Esse corpo que tu encontraste ao acordar e que não reconheceste era o de um qualquer? Do primeiro conhecido? Bastava-te isso?
Dissera-lho, também, porque ela insistira e lhe parecia que se mostrava sem roupa para ele a castigar ou compreender o que se recusaria, sempre, a compreender. Ele queria-a sem passado. E porque Lorenza sabia que era assim, não lhe respondeu. Ele não acreditava e, no entanto, nunca amara ninguém tão entranhadamente e por isso lhe tinham acontecido tantas coisas. A chegada dele alterara-lhe o ritmo de vida. E ele também a sufocara. Os da Grécia, do Brenta, tinham sido uma defesa contra ele, maneira de procurar fugir-lhe porque o amava e lhe custava amá-lo. O que ela teria gostado de ouvir era o seguinte:
“Nada disso tem importância porque nunca te esqueceste de mim. Ias jantar com os teus amigos e depois, aconteciam outras coisas mas era a maneira de tentares respirar, de te libertares, por pouco que fosse, da minha imagem. E, se calhar, até te sentias melhor, até te era mais fácil lembrares-te de mim... Não tenhas remorsos. Eu compreendo.”
Não podia dizer-lho, bem o sabia: ele queria-a intocada, que não conhecesse outro mundo além daquele em que estivera com ele. Considerava-se pura, o que acontecera não alterara nada. Sentia-se capaz de o receber, se ele fosse capaz de lhe oferecer. Mostrava-se porque não queria enganá-lo e queria que ele a compreendesse. O amor deveria ser isso.
— Basta-te? — insistiu Andrea.
— Não, não me basta e é triste o que dizes. Achas que sou uma prostituta?
— Nunca o pensei.
Mas, porque ouvira tudo e se sentia ferido, acrescentou:
— Alguma importância tem... — murmurou Lorenza.
Andrea apressou o passo, o que ela lhe confessara não lhe interessava. Não queria perdê-la. Mas a Lorenza que não queria perder era outra: a da gabardina branca, a do vaporetto e do cais da Accademia. Aquelas confissões afastavam-nos. A confissão que esperava era que lhe dissesse que o amava e que nunca amara assim ninguém. Aquela alma que se abria não era a que ele queria. E teve vontade de a magoar.
— Esse corpo que tu encontraste ao acordar e que não reconheceste era o de um qualquer? Do primeiro conhecido? Bastava-te isso?
Dissera-lho, também, porque ela insistira e lhe parecia que se mostrava sem roupa para ele a castigar ou compreender o que se recusaria, sempre, a compreender. Ele queria-a sem passado. E porque Lorenza sabia que era assim, não lhe respondeu. Ele não acreditava e, no entanto, nunca amara ninguém tão entranhadamente e por isso lhe tinham acontecido tantas coisas. A chegada dele alterara-lhe o ritmo de vida. E ele também a sufocara. Os da Grécia, do Brenta, tinham sido uma defesa contra ele, maneira de procurar fugir-lhe porque o amava e lhe custava amá-lo. O que ela teria gostado de ouvir era o seguinte:
“Nada disso tem importância porque nunca te esqueceste de mim. Ias jantar com os teus amigos e depois, aconteciam outras coisas mas era a maneira de tentares respirar, de te libertares, por pouco que fosse, da minha imagem. E, se calhar, até te sentias melhor, até te era mais fácil lembrares-te de mim... Não tenhas remorsos. Eu compreendo.”
Não podia dizer-lho, bem o sabia: ele queria-a intocada, que não conhecesse outro mundo além daquele em que estivera com ele. Considerava-se pura, o que acontecera não alterara nada. Sentia-se capaz de o receber, se ele fosse capaz de lhe oferecer. Mostrava-se porque não queria enganá-lo e queria que ele a compreendesse. O amor deveria ser isso.
— Basta-te? — insistiu Andrea.
— Não, não me basta e é triste o que dizes. Achas que sou uma prostituta?
— Nunca o pensei.
Mas, porque ouvira tudo e se sentia ferido, acrescentou:
— Mais valia que tivesses tido cuidado.
— Qual cuidado?! — gritou Lorenza. — Você nunca percebe nada! O que é que queria? Que eu andasse atrás de si como uma cadela? Nunca andarei!
— Qual cuidado?! — gritou Lorenza. — Você nunca percebe nada! O que é que queria? Que eu andasse atrás de si como uma cadela? Nunca andarei!
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