segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -IIª Parte XVI

...'conceito espacial', trabalho de Lucio Fontana...


Bernardo Dillon, o maior amigo de Andrea e colega de curso, que exercia medicina em Bassano, dissera-lhe:

-Que raio de história! Vocês meteram-se num remoinho e andam às voltas dentro dos sentimentos, sem conseguirem libertar-se! Por que é que não se explicam? Gostam disto? Agarra-a! Puxa-a! Mexe-lhe! Vais ver que ela também pega em ti!

E, com ar submisso, enquanto bebia o café, talvez porque receasse ter-se excedido, acrescentou:
— As mulheres gostam de ser desafiadas, está-lhes na massa do sangue. E depois Lorenza é uma mulher séria...

Não ligavam as duas frases: a expectativa frenética de Lorenza e a honestidade que poderia significar estar ela acima do que se passava: uma santa, à espera de que lhe reconhecessem as qualidades. Mas ligavam: Bernardo sabia que as pessoas são assim, frágeis e disponíveis, e, ao mesmo tempo, com a dignidade e o respeito que têm por si próprias.

-Gostam que a provoques e tramam-te –comentou Andrea, a sorrir.

Via o amigo de há tantos anos, médico numa terra de província, solteirão, as bochechas cobertas de suor, a dizer-lhe aquelas coisas: se pegasse em Lorenza, ela entregar-se-ia. Talvez. Não lhe desagradava a ideia de voltar para ela, sem os comparsas ao meio. E, se calhar, ela pensava o mesmo. E Caterina? Bernardo esquecera-a? Caterina não era só um comparsa, um figurante: era uma boa companhia e teria muita pena se a perdesse.
-As coisas não são tão simples, Bernardo!

Bernardo levantou-se e respondeu:
— Se gostas dela, agarra-a, porque pode acontecer que a percas.

Bernardo levantava-se e voltava a sentar-se. Andrea observava-o, igual a sempre, agora ali, na esplanada do Paolin, em San Stefano, a barriga a sair-lhe das calças, a mão à procura da carteira para pagar a despesa, a expressão aflita, porque era gordo, pesava oitenta quilos, e, quando se emocionava ficava assim. E Andrea hesitava: “A bondade dele, o amigo? Ou quer lixar-me? Ou quer que eu volte aos tempos em que eu era ingénuo e, antes de pensar em mim, pensava nos outros? Com que direito é que me vem com estas coisas? Eu, nos outros, penso mas sem exagerar... “

Ou queria lembrar-lhe que a vida não era só Treviso, o hospital, a tristeza do casamento que falhara, a responsabilidade do futuro de Roberto, que havia ainda para ele outro caminho? “Ainda ficas sem ela, tem cuidado!” — dizia-lhe Dillon.

“Eu gostei sempre das pessoas, não tenho culpa que a vida seja difícil. É claro que penso nos outros, não me venhas agora tu, Bernardo, ensinar o que devo fazer! Se quis esta profissão de médico é porque pensava nos outros, porque os queria ajudar. Mas a gente gosta até onde pode. Ou querias que eu fosse um super-homem? Nem ela se esforça muito, não tenhas ilusões... “

Andrea via Bernardo, com o cinto a apertar-lhe a barriga, o suor a escorrer-lhe pelas faces, as mãos em cima das coxas, e a insistir:
— Eu não, tenho nada com isso, mas parece-me um disparate. De que é que estão à espera? De envelhecerem?
— Não sei.

Bernardo Dillon que lera qualquer coisa nos olhos de Andrea, sentiu angústia e pena do amigo: “Já se comprometeram até aos ossos! Mais valia que o percebessem! Andam a enganar-se e nunca mais ninguém os separa!” Era tarde e não os podia salvar.

-Adeus, Andrea, havemos de nos encontrar mais vezes! — exclamou, com remorsos de ir embora — Aparece em Bassano! Ficas em minha casa uns dias!
E, enquanto o puxava pelos ombros, e o abraçava, acrescentou:
— Ficas lá umas semanas! O tempo que quiseres!

Andrea, que o acompanhara até à estátua de Nicolò Tommaseo e lhe dera o braço, sentiu-o muito perto. Ele afastava-se, dentro das calças largas e do casaco que se lhe agarrava ao rabo, direito à estação. Antes de S. Vitale, voltou-se, a acenar com a cabeça, a sorrir e a dizer-lhe adeus.

“Deixas-me, aqui, Amigo, deixas-me entregue aos meus fantasmas... Deixas-me com o que me disseste e que te custou tanto! Gostavas que eu não tivesse estes problemas e de os poderes resolver. Como nos velhos tempos, quando me passavas as respostas, nas aulas da Faculdade, gostavas de me tirar dos sarilhos em que eu estou... Querias ser mágico! Ó rapaz, isso é difícil! Já não somos os mesmos! Isso é a tua amizade por mim a trabalhar! Muito obrigado. Eu vou continuar com eles, com os problemas: a Lorenza, a Caterina, a Luisa, o Roberto... E, se o pensaste, tinhas razão: já não me safo. E por que havia de safar-me? São os meus problemas. Um dia, na casa de Bassano, falaremos disso tudo... “

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