quinta-feira, 25 de fevereiro de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Parte IIIª VI a

trabalho do pintor chinês Qi Baishi (1864-1957)



Fora há muito tempo o encontro com Luciana Valeri e agora que falava com Lorenza recordava bem: não quisera explicar-lhe que a ternura dos outros o surpreendia porque lhe faltava muitas vezes a coragem de ser generoso. Acontecia pensar que era tempo perdido, ninguém o compreendia e interpretariam mal os seus gestos. Só depois voltava a arriscar, a entregar-se. Luciana tinha razão: aos seus doentes, confiava-se, oferecia-se. Mas nem então sentia a consciência tranquila. O hospital, o consultório, os doentes não, representariam um mundo à parte que o defendia e aquecia, protegia da realidade que o chocava e lhe parecia abaixo da sonhada? E o sonho não era um grandíssimo disparate?

— Olha — disse Lorenza —, ainda bem que gostas das minhas amêndoas. Já é qualquer coisa...
— Sim, já é qualquer coisa...

Era qualquer coisa, uma amêndoa que ela lhe oferecia, mas querer qualquer coisa não era fácil. Mais fácil aceitar o que lhe dava. Se fosse honesto, reconheceria que nem sempre aceitava o que ela lhe dava e vinha de dentro dela. Fingia que não percebia e deixava-a de mãos estendidas. Era mais fácil aceitar os objectos: pesavam menos do que as almas.

— Sim, já é qualquer coisa... — repetiu.

E Lorenza pensou:
“Consolo-o com as amêndoas. Vá lá, ao menos isso!. Pelo visto, não procuramos mais nada.”

Era injusta. Desejar mais era uma aflição. Bastava a dor ou a tranquilidade da própria solidão. Pertencia-lhes e cuidavam-na, conheciam-na. Não queriam nada dos outros e viviam na carência, que preferiam. Abrirem-se seria um sacrifício mais doloroso do que suportarem a falta e a solidão. Tentavam apoiar-se nos sofrimentos, inseguranças, incertezas. E no gosto de se julgarem incompreendidos e abandonados. Lá no âmago, reconheciam a pobreza, mas insistiam: defesa frágil, pequeno muro erguido conforme fora sendo possível, contra eles próprios e contra o resto. Tão baixo que viam tudo por cima dele: as suas fraquezas e a realidade que os circundava e onde nunca se sentiriam bem. Mas haviam escolhido e não se abdica, facilmente, das escolhas.

— Não podes impedir-me de ter sono...

Lorenza abandonara-se ao cansaço. Em Treviso, reclinada no sofá da sala, desprotegida, escondera o rosto entre os braços e estendera as pernas. Com o corpo dele à frente, de que fugia? Que é que não queria que ele a impedisse de ter? Abandono, lassidão, os olhos escondidos, o corpo à disposição, que significava? Recusava-se, fechava-se, escapava ou estava à espera de que a contrariasse e a trouxesse outra vez para o pé dele e não levasse a sério o que dizia?

“Vou mexer-te”, pensou Andrea. “Amar é uma grande responsabilidade, uma coisa séria, mas não resisto.”

Levantou-lhe o rosto e viu os olhos assustados como se não o esperasse. Mas, lá no fundo, no azul da íris, a palpitar ao sabor das lágrimas, percebeu que ainda estava ligada a ele: tinha a expressão de uma pessoa que pedia qualquer coisa a outra.

— Porque choras?
— Eu? Eu não estou a chorar...
E escondeu o rosto nas mãos dele.

Andrea afagou-lhe os cabelos.
— Pois não, não estás a chorar. Nem há razão.
— Achas? — perguntou ela, as faces em brasa e molhadas.
— Acho. Gosto de ti. Dá cá um beijo...

Ela fugiu-lhe com a boca e ele beijou-lhe o nariz e, porque se retraía, os olhos e as sobrancelhas.

— Estás a fugir, estás sempre a fugir. E o que tu querias era isto. Era isto que te fazia bem, que nos fazia falta.
— O quê? Os teus beijos?

Já tudo se modificara. Não olhava da mesma maneira, o sorriso, resignado e melancólico, feria-o: havia, nele, ironia e desafio.

— Não preciso dos teus beijos... — acrescentou Lorenza mas, quando insistiu, deixou que continuasse a beijá-la.

“Sou incapaz de me afastar de ti” pensou Andrea “Tenho medo. O mal foi conhecer-te. É tarde. Mas se eu quiser... “

O que ele queria era aquilo: o cheiro dela e o consentimento. E, se tinha consciência (uma ideia que o perseguia), se não ignorava que o gosto e o prazer correspondiam, em parte, ao egoísmo (e, por isso, a ideia o perseguia e atormentava: temia dever reconhecer-se culpado, diante dela), não os corrigia.

— Se eu quiser... — disse.
— O quê? — perguntou Lorenza e fingiu que não estava abraçada a ele e aconchegou-se.
— Sim, se eu quiser — repetiu Andrea.
— Então, vê lá se queres!

Não entendera. O que Andrea queria -pensara-o- era ir-se embora. Custou-lhe que ela julgasse que desejava entregar-se-lhe ou obrigá-la a entregar-se. Sentiu-se traidor e ridículo, a boa-fé de Lorenza confundia-o. Acreditava na vontade de tê-la, não entendera. Responsabilizava-o. Não entendera? Parecia-lhe perceber na sua voz ironia e cepticismo. Afinal, que sabia? Fingia-se cândida, para o magoar?

— Tens medo? — insistiu ela.
Andrea, desorientado, murmurou:
— Tenho.
— Também eu, mas, enquanto dura, que dure.

No sobressalto em que se misturavam alegria e cepticismo, tirara da frase de Andrea o que lhe convinha: que fosse capaz de a ter. Mas as ilusões duram o que duram. E porque se queria sua companheira, chegou-se mais a ele:
— Deixa lá. Está-se aqui muito bem.

Ele não sabia que fazer das mãos dela e, meio divertido, meio assustado, perguntou-lhe:
— Até quando?
— Ai isso não sei.

Tinha-a quase ao colo e ela abandonara-lhe o corpo. Em vez de continuar a apertá-la, afastou-se.
— Nem eu sei. Quem sabe? Mas foi bom, não foi? Tens razão, estivemos aqui bem.

Não o dizia como se falasse de uma brincadeira: era agressivo, quase grosseiro; parecia que queria recuperar qualquer coisa que perdera, ou receava perder. E Lorenza, que o acompanhara instintivamente no gesto, exclamou:
— Chega-te para lá! Sufocas-me!

Dissera-o, a defender-se. Não tinha ilusões mas esperava mais de Andrea e de si própria. Cansava-a aquilo tudo, era mole, viscoso. Fora ele que afastara o corpo, mas não o queria. Agora, não o queria.

— Sufoco-te? Porquê? És injusta. Gosto de ti, sou teu amigo.

Feriu-a ainda mais:
— Não sejas hipócrita!

Gostava dela? Era seu amigo? E empurrava-a, escapava, refugiava-se nas suas quintas, na casa de Treviso.

— Eu não sou um hipócrita. — retorquiu Andrea, que se levantou e acendeu um cigarro, encostado à janela.

Viu-o de olhos baixos, com o cigarro entre os dedos, a esconder-lhe o rosto, e pareceu-lhe frágil, inseguro, tão estranho como ela naquela casa. E já ia de novo ao seu encontro.

— Não és, mas, pareces. Tens de ter juízo...
— Tenho cuidado de mais. Antes não tivesse. Sobra-me juízo.

E chegado ao vidro escuro, porque entardecia, julgou entendê-la: “Esperava outra coisa, esperava que não a largasse. Se calhar, podia tê-la agora aqui. E era o que ela queria, não queria senão isso. Veio a minha casa, deitou-se no sofá, para isso. Meteu-me a cara nas mãos e encostou-me os seios, tocou-me no peito, porque esperava que eu correspondesse, me entregasse e acalmasse o seu desejo. Qual? O do momento? E os que teve pela grega e pelos amigos dos cruzeiros? E aqueles de que nunca me falou, nunca me deixou saber? Chama piccolo mondo, à cena onde se esconde. Que mundo? Ninguém o conhece. As portas e as janelas estão fechadas. Agora, agarrou-se a mim, provei-lhe o suor e senti-lhe a carne dura, às vezes doce; mas não me convence.”

Ela interrompeu-o:
-És capaz de ter razão, cuidas-te de mais. Entendo. Temos medo os dois. Também eu sou cuidadosa. Dou-te um beijo e fujo.

Beijou-o na face e afastou-se. Ficou a olhar, com um sorriso meigo em que ele reconheceu tristeza e provocação: era doçura que só existia porque estava ali à frente e ela talvez esperasse que, apesar de tudo, a procurasse.

-Enganei-me. Não devíamos ter cuidado nenhum — disse Andrea.
-Exageramos... –murmurou Lorenza.

Não precisava que lho confirmasse:
-Perdemos muito tempo. O Gabriele diz que voa. A água do rio passa uma vez junto à margem.
-É tarde de mais?

Não respondeu. Gostaria de lhe dizer:
-“Perdemos tempo porque andaste sempre longe e nunca me ligaste nenhuma. Querias pouco. Os teus amigos bastavam-te. És tu a responsável.”

E também:

“Admiras-te que eu desconfie de ti? Foi sempre com os outros que te entendeste bem.“

Lorenza viera a Treviso para lhe provar que não tinha medo? Como quem arrisca a última carta, a decisiva? Aceitara, contrariado. E, agora, era aquilo: a conversa de surdos.

-Anda lá fora.

No jardim, colheu flores e ofereceu-lhe.
-São tuas.
— As flores roubadas!

Ela sorriu e ele viu o mundo de que estava excluído, o infinito do sonho de que nunca participaria.

— Não são roubadas. Sou eu em que te as dá. -respondeu, áspero.
— Só as flores?
-Querias mais?
Lorenza cheirou as flores.
— Dás pouco de ti. Não te entregas. Queres agarrar mas não deixas que te agarrem. Para ti, sou um objecto. Não te amo.
— E tu? Como és? — perguntou Andrea.

Ela virou-lhe as costas e continuou em frente.
-Tens um jardim muito bonito.
Andrea explicou:
— Estes são amores-perfeitos. Há rosas e margaridas... Além, há um lago. Quando viveres aqui...
— Será difícil.
— Não gostaste da casa?
— Gostei. Agora quero voltar a Veneza.
Ele consentiu:
-Eu levo-te.

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