óleo de Mark Rothko (1903-1970)... Mas durou pouco aquele entusiasmo. Tinham metido ao meio Luciana VaIeri, para se suportarem. E suportaram-se. Apreciaram-se, estimaram-se, mas, quando Luciana e a filha foram embora, perceberam que era complicado.
-A Luciana! — lembrara, depois, Lorenza. — Tão amiga! Uma irmã mais velha, a aconselhar-nos.
E sorrira:
- Nós precisamos de conselhos?
— De alguns precisamos.
Recordavam aquele fim de tarde, o Volto, onde encontraram Memmo e Gabriele Trevisan.
— Olha quem chega! — exclamara o Alberto.
E tinham ficado a beber e a conversar, frente ao balcão, a verem a noite cair lá fora, apertados porque a sala era pequena, com as luzes em cima e as borboletas à volta e o que as pessoas diziam e o alívio que sentiam. Livres, continuavam juntos. Andrea piscou o olho a Lorenza e disse a Gabriele Trevisan:
— Sempre com a cervejinha.
Gabriele Trevisan, que segurava o copo da cerveja à altura do cinto e ria, a olhar para cima porque Andrea era mais alto do que ele, parecia desequilibrar-se e equilibrava-se nas pernas curtas e oscilava, os olhos brilhavam, apesar de embaciados pelo álcool e, por isso, vulneráveis, a fraqueza aparente, que atraía a simpatia dos outros, Gabriele Trevisan, enquanto Alberto Memmo lhe punha a mão no ombro e, a rir, entornava o vinho sobre as barbas, replicou:
-Com quem querias que estivesse? Já não tenho a tua idade e, além disso, uma cerveja é uma cerveja, custa pouco e faz bem à alma! À alma, percebes?! Nem todos respeitam essa coisa!
E bateu com a mão no peito magro. Andrea sorriu e concordou:
—Às vezes não damos pela sorte que temos.
—Ainda bem que percebes. Julgas que eu ando, a apanhar gambozinos?!
— És um fidalgo!
Dizia-o a sério, Trevisan sempre o encantara: a lhaneza e a generosidade, o respeito pelos outros e por si próprio. Nunca quebrava, com a birra picola ou sem ela, apertada nos dedos trémulos de alcoólico bom.
Alberto Memmo atalhou:
— Sim, um fidalgo. Mas não lhe peças mais do que o que te pode dar. Agrada-te a simpatia deste amigo mas não procures nele o esquecimento das tuas dificuldades. Ou, então, não és seu amigo: estás a ver se o aproveitas para escapares.
— É claro que Andrea percebe! — interrompeu Lorenza, secamente.
Ficaram a olhar: o que é que ela queria?
— Deixa lá, não tem importância –contemporizou Andrea.
E Gabriele Trevisan, com o sorriso aberto e irónico, desenganado e pronto a amar, carinhoso e desesperado, quem ia além da solidão?, respondeu-lhes:
— Não tem importância nenhuma. Fioi, meus filhos, eu podia ser vosso pai e digo-vos que não tem importância nenhuma. Eu que percebo tudo. Não é só o Andrea que percebe. Eu também percebo.
Alberto Memmo disse:
— A estes meninos, devemo-lhes, muita ternura.
E Gabriele Trevisan, apontou Lorenza e Andrea e perguntou ao copeiro:
— Não serves dois brancos?
— Eu quero um Sauvignon — pediu Alberto.
— Quatro Sauvignon, quatro bons Sauvignon –disse Gabriele- Tens aí?
O empregado foi buscar uma garrafa:
— É do melhor!
-Ainda bem! — exclamou Alberto. — Quem é que podia beber outra coisa?
E virou-se para Andrea e Lorenza:
— Vamos a isto!
-Vamos a isto! — repetiu Gabriele, a despachar a cerveja meia cheia.
— Pois claro! — concordou Lorenza. — Sauvignon ou o que for!
Alberto Memmo pediu ao empregado que servisse também corações de alcachofras temperados com azeite, salsa, sal e pimenta.
— Boa ideia! — exclamou Lorenza. — Fica bem com o vinho!
— Olha a novidade! — disse, satisfeito, Gabriele Trevisan. — Nunca tinhas provado?
— Já — respondeu Lorenza —, mas estes são especiais...
— Gostas de vinho e de petiscos? — perguntou-lhe Andrea.
— Às vezes sim — respondeu Lorenza.
Sabia que estava a provocá-la e não acreditava que a boa vontade dos outros resolvesse o problema. Ele também não queria que ela acreditasse e receava que se deixasse iludir pela delicadeza dos amigos e, assim, lhe fugisse. Preferia que continuassem na dúvida e na angústia e não fugisse de onde ele queria que ela estivesse: à frente dele, com as dificuldades. Sim, talvez tivesse razão, talvez se afastassem quando nem as dificuldades os unissem.
— É uma coisa diferente!
— Pois claro! É bom o vinho e os petiscos...
Os dois, Gabriele Trevisan e Alberto, Memmo, perceberam que não tinham resolvido nada.
— Ainda bem — concordou Gabriele —, nem se queria outra coisa!
Dissera-o sem convicção e tinha motivo para isso: nada os acalmava, era inútil a delicadeza.
Alberto Memmo interveio:
-Quando se gosta de vinho e de petiscos, ama-se melhor. E não é isso que vocês andam a fazer, a amarem-se?
Lorenza e Andrea riram.
— A amar-nos? Quem dera! –disse Andrea.
— Era bem bom! — confirmou Lorenza.
O riso escondia defesa e hipocrisia. Chegavam-se um ao outro mas aquela alegria tinham-na improvisado para que não os atingissem. iam-se, a saberem que, atrás, não havia alegria nenhuma mas isso era com eles e queriam guardá-lo, pertencia-lhes. Quase acreditaram, quase se libertaram do lastro, do que traziam às costas, desconfianças, agressões, injustiças. Andrea desabafou:
-Que bom que era, se soubéssemos amar-nos! E, se calhar, é verdade! Precisamos um do outro...
E, outra vez inseguro, perguntou a Lorenza:
-Não achas?
À mercê e assustada, Lorenza hesitou e respondeu:
— Acho que sim.
De fugida e a esconderem aos outros, apertaram as mãos. Demoraram um instante o olhar um no outro e logo o baixaram. Estavam tão perto que, por um bocadinho, se encontravam. Mas tudo haveria de voltar ao mesmo. Gabriele Trevisan percebeu que sofriam e mereciam ser felizes.
— Ora bolas! –exclamou.
Entornara a cerveja nas calças, tinha os olhos e as bochechas congestionados. Alberto Memmo ajudou-o a limpar as calças e empurrou-o para a frente, a ver se ele se equilibrava, e ele, que se equilibrava e que entornara a cerveja porque se emocionara, agarrou o braço de Andrea e gritou:
— Meninos! Não pode ser! Isto passa a correr! A vossa juventude, a de vocês os dois, está a fugir e não podem amar-se quando forem velhinhos!
Alberto que o via indefeso (“Não são só eles são os passarinhos, nós também levamos a vida às costas e não é fácil”), impacientou-se:
— O que temos com isso? Deixa-os lá com os problemas deles!
Alberto Memmo, exagerava, a defender o amigo. Havia em Gabriele ingenuidade e fragilidade aparentes. Não era um fraco mas naquele momento custava-lhe que o vissem entornar a cerveja porque se afligira. Julgavam que estava bêbedo. Mas Alberto sabia que a embriaguez se cruzava nas cordas da alma com os sentimentos e o álcool, a insatisfação de sempre e a cerveja das garrafas pequeninas, e não queria que troçassem dele.
— Os nossos amigos já são crescidos!
Gabriele Trevisan não concordou:
— Os nossos amigos andam desorientados e não fica nada mal ajudá-los!
— Em quê? — perguntou Lorenza.
Entendera o que ele sentia: vergonha por entornar a cerveja nas calças e revolta por quererem protegê-lo. A vontade de os ajudar que lhe via nos olhos aflitos e determinados. E, antes que ele respondesse, com a simpatia que conseguiu juntar, inclinada para ele e quase a acariciar-lhe os cabelos brancos, disse:
— Isto foi sol de pouca dura. Tem razão, andámos por aí às voltas.
— A encanar a perna à rã -cortou Andrea.
— Sim, a encanar a perna à rã.
Mas, como não era uma resposta suficiente e não pagava o sacrifício de Gabriele, acrescentou:
—O Andrea veio agora com a história da rã. E tem razão: andamos coxos há muito tempo. Desorientados. Mas o que ele não quer é ouvir as verdades.
Gabriele Trevisan, os olhos radiantes, a retractar-se e a abençoá-los, exclamou:
— Eu é que exagerei! Ninguém gosta de ouvir as verdades! Vocês, fioi, hão-de ser felizes!
-A Luciana! — lembrara, depois, Lorenza. — Tão amiga! Uma irmã mais velha, a aconselhar-nos.
E sorrira:
- Nós precisamos de conselhos?
— De alguns precisamos.
Recordavam aquele fim de tarde, o Volto, onde encontraram Memmo e Gabriele Trevisan.
— Olha quem chega! — exclamara o Alberto.
E tinham ficado a beber e a conversar, frente ao balcão, a verem a noite cair lá fora, apertados porque a sala era pequena, com as luzes em cima e as borboletas à volta e o que as pessoas diziam e o alívio que sentiam. Livres, continuavam juntos. Andrea piscou o olho a Lorenza e disse a Gabriele Trevisan:
— Sempre com a cervejinha.
Gabriele Trevisan, que segurava o copo da cerveja à altura do cinto e ria, a olhar para cima porque Andrea era mais alto do que ele, parecia desequilibrar-se e equilibrava-se nas pernas curtas e oscilava, os olhos brilhavam, apesar de embaciados pelo álcool e, por isso, vulneráveis, a fraqueza aparente, que atraía a simpatia dos outros, Gabriele Trevisan, enquanto Alberto Memmo lhe punha a mão no ombro e, a rir, entornava o vinho sobre as barbas, replicou:
-Com quem querias que estivesse? Já não tenho a tua idade e, além disso, uma cerveja é uma cerveja, custa pouco e faz bem à alma! À alma, percebes?! Nem todos respeitam essa coisa!
E bateu com a mão no peito magro. Andrea sorriu e concordou:
—Às vezes não damos pela sorte que temos.
—Ainda bem que percebes. Julgas que eu ando, a apanhar gambozinos?!
— És um fidalgo!
Dizia-o a sério, Trevisan sempre o encantara: a lhaneza e a generosidade, o respeito pelos outros e por si próprio. Nunca quebrava, com a birra picola ou sem ela, apertada nos dedos trémulos de alcoólico bom.
Alberto Memmo atalhou:
— Sim, um fidalgo. Mas não lhe peças mais do que o que te pode dar. Agrada-te a simpatia deste amigo mas não procures nele o esquecimento das tuas dificuldades. Ou, então, não és seu amigo: estás a ver se o aproveitas para escapares.
— É claro que Andrea percebe! — interrompeu Lorenza, secamente.
Ficaram a olhar: o que é que ela queria?
— Deixa lá, não tem importância –contemporizou Andrea.
E Gabriele Trevisan, com o sorriso aberto e irónico, desenganado e pronto a amar, carinhoso e desesperado, quem ia além da solidão?, respondeu-lhes:
— Não tem importância nenhuma. Fioi, meus filhos, eu podia ser vosso pai e digo-vos que não tem importância nenhuma. Eu que percebo tudo. Não é só o Andrea que percebe. Eu também percebo.
Alberto Memmo disse:
— A estes meninos, devemo-lhes, muita ternura.
E Gabriele Trevisan, apontou Lorenza e Andrea e perguntou ao copeiro:
— Não serves dois brancos?
— Eu quero um Sauvignon — pediu Alberto.
— Quatro Sauvignon, quatro bons Sauvignon –disse Gabriele- Tens aí?
O empregado foi buscar uma garrafa:
— É do melhor!
-Ainda bem! — exclamou Alberto. — Quem é que podia beber outra coisa?
E virou-se para Andrea e Lorenza:
— Vamos a isto!
-Vamos a isto! — repetiu Gabriele, a despachar a cerveja meia cheia.
— Pois claro! — concordou Lorenza. — Sauvignon ou o que for!
Alberto Memmo pediu ao empregado que servisse também corações de alcachofras temperados com azeite, salsa, sal e pimenta.
— Boa ideia! — exclamou Lorenza. — Fica bem com o vinho!
— Olha a novidade! — disse, satisfeito, Gabriele Trevisan. — Nunca tinhas provado?
— Já — respondeu Lorenza —, mas estes são especiais...
— Gostas de vinho e de petiscos? — perguntou-lhe Andrea.
— Às vezes sim — respondeu Lorenza.
Sabia que estava a provocá-la e não acreditava que a boa vontade dos outros resolvesse o problema. Ele também não queria que ela acreditasse e receava que se deixasse iludir pela delicadeza dos amigos e, assim, lhe fugisse. Preferia que continuassem na dúvida e na angústia e não fugisse de onde ele queria que ela estivesse: à frente dele, com as dificuldades. Sim, talvez tivesse razão, talvez se afastassem quando nem as dificuldades os unissem.
— É uma coisa diferente!
— Pois claro! É bom o vinho e os petiscos...
Os dois, Gabriele Trevisan e Alberto, Memmo, perceberam que não tinham resolvido nada.
— Ainda bem — concordou Gabriele —, nem se queria outra coisa!
Dissera-o sem convicção e tinha motivo para isso: nada os acalmava, era inútil a delicadeza.
Alberto Memmo interveio:
-Quando se gosta de vinho e de petiscos, ama-se melhor. E não é isso que vocês andam a fazer, a amarem-se?
Lorenza e Andrea riram.
— A amar-nos? Quem dera! –disse Andrea.
— Era bem bom! — confirmou Lorenza.
O riso escondia defesa e hipocrisia. Chegavam-se um ao outro mas aquela alegria tinham-na improvisado para que não os atingissem. iam-se, a saberem que, atrás, não havia alegria nenhuma mas isso era com eles e queriam guardá-lo, pertencia-lhes. Quase acreditaram, quase se libertaram do lastro, do que traziam às costas, desconfianças, agressões, injustiças. Andrea desabafou:
-Que bom que era, se soubéssemos amar-nos! E, se calhar, é verdade! Precisamos um do outro...
E, outra vez inseguro, perguntou a Lorenza:
-Não achas?
À mercê e assustada, Lorenza hesitou e respondeu:
— Acho que sim.
De fugida e a esconderem aos outros, apertaram as mãos. Demoraram um instante o olhar um no outro e logo o baixaram. Estavam tão perto que, por um bocadinho, se encontravam. Mas tudo haveria de voltar ao mesmo. Gabriele Trevisan percebeu que sofriam e mereciam ser felizes.
— Ora bolas! –exclamou.
Entornara a cerveja nas calças, tinha os olhos e as bochechas congestionados. Alberto Memmo ajudou-o a limpar as calças e empurrou-o para a frente, a ver se ele se equilibrava, e ele, que se equilibrava e que entornara a cerveja porque se emocionara, agarrou o braço de Andrea e gritou:
— Meninos! Não pode ser! Isto passa a correr! A vossa juventude, a de vocês os dois, está a fugir e não podem amar-se quando forem velhinhos!
Alberto que o via indefeso (“Não são só eles são os passarinhos, nós também levamos a vida às costas e não é fácil”), impacientou-se:
— O que temos com isso? Deixa-os lá com os problemas deles!
Alberto Memmo, exagerava, a defender o amigo. Havia em Gabriele ingenuidade e fragilidade aparentes. Não era um fraco mas naquele momento custava-lhe que o vissem entornar a cerveja porque se afligira. Julgavam que estava bêbedo. Mas Alberto sabia que a embriaguez se cruzava nas cordas da alma com os sentimentos e o álcool, a insatisfação de sempre e a cerveja das garrafas pequeninas, e não queria que troçassem dele.
— Os nossos amigos já são crescidos!
Gabriele Trevisan não concordou:
— Os nossos amigos andam desorientados e não fica nada mal ajudá-los!
— Em quê? — perguntou Lorenza.
Entendera o que ele sentia: vergonha por entornar a cerveja nas calças e revolta por quererem protegê-lo. A vontade de os ajudar que lhe via nos olhos aflitos e determinados. E, antes que ele respondesse, com a simpatia que conseguiu juntar, inclinada para ele e quase a acariciar-lhe os cabelos brancos, disse:
— Isto foi sol de pouca dura. Tem razão, andámos por aí às voltas.
— A encanar a perna à rã -cortou Andrea.
— Sim, a encanar a perna à rã.
Mas, como não era uma resposta suficiente e não pagava o sacrifício de Gabriele, acrescentou:
—O Andrea veio agora com a história da rã. E tem razão: andamos coxos há muito tempo. Desorientados. Mas o que ele não quer é ouvir as verdades.
Gabriele Trevisan, os olhos radiantes, a retractar-se e a abençoá-los, exclamou:
— Eu é que exagerei! Ninguém gosta de ouvir as verdades! Vocês, fioi, hão-de ser felizes!
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