domingo, 14 de fevereiro de 2010

Há 80 anos José Régio começava a ensinar no antigo Liceu Mouzinho da Silveira, em Portalegre (ano lectivo de 1929-30)

... José Régio, retrato a óleo de Ventura Porfírio (outro pintor superior e injustamente silenciado, de Castelo de Vide)...


UM POETA EM PORTALEGRE

Cristóvão Falcão e José Duro são dois marcos poéticos da vida cultural portalegrense. De lá ou de outras bandas, conta a cidade nomes de muito valor. Na pintura, um grande forasteiro esquecido, Miguel Barrias, e um dos maiores do nosso século XX, Manuel D’Assumpção, filho da terra; nas letras, além dos citados, o homem de Vila do Conde, José Régio que, em 1929, ali montou tenda de fazedor de versos, deixando-se ficar até 1967. Professor no Liceu Mouzinho da Silveira, colaborador do semanário oposicionista local, “A Rabeca” (cuja verticalidade se impôs além fronteiras: o parisiense Le Monde autorizou-o a publicar, gratuitamente, artigos seus), Régio tornou-se ponto de referência. Marcou a cidade e ela agradeceu-lhe. Por que a marcou? Pelo amor que lhe teve (a ponto de lhe deixar a preciosa Casa-Museu) e porque, nos idos de 40, 50, em volta de Régio, se formou uma tertúlia capaz de manter acesa a chama do debate e da crítica livres e de estimular o meio, à revelia da ditadura salazarista. O extinto Café Central era ponto de encontro. A convite dos Professores Maria Luísa Moreira e Carlos Serra, da Escola Secundária de S. Lourenço, desloquei-me a Portalegre e falei de Régio, no Centro de Artes e Espectáculos. Não é fácil levar à conversa 120 adolescentes. Mas a “química” aconteceu. No fim e ao cabo, beneficiei do milagre conseguido por corajosos professores que sobrevivem à inépcia oficial: manter viva a fome de saber numa juventude que anda quase ao Deus-dará. É nos ensinos básico e secundário que tudo começa e se salva o Espírito. José Régio alertou, num texto fundamental para a compreensão da obra e atitude ético-religiosa do grande poeta: ‘só na consciência do homem se pode dar o verdadeiro progresso que possibilite um progresso verdadeiro nas condições políticas, sociais, económicas, intelectuais e morais da humanidade’ (Resposta a Miguel de Sá e Melo, em Inquietação e Presença, de Moreira das Neves, Edições Juventude, Leiria, 1942) .

publicado, hoje, na Página de Cultura do Jornal de Notícias

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