
...retrato de jovem muher, óleo de Amedeo Modigliani
Agora ia pelas ruas de Veneza. Sentia-se bem no meio das pessoas que falavam e se acotovelavam e o envolviam e acompanhavam. Ia atrás delas, ao contrário do caminho de Bernardo e, quando chegou ao Campo Manin, agarrou o telefone junto à ponte e chamou Lorenza.
— Estão? — perguntou-lhe.
— Aqui... E tu?
— No Campo Manin, sozinho, à tua espera...
E emendou, envergonhado:
— Com muito trabalho. De passagem em Veneza.
Mas porque era o que queria propor-lhe disse:
— Jantas comigo?
Ela aceitou:
—Onde?
— Onde quiseres. Na Altalena?
-Está bem.
— Então, às oito e meia em S. Zaccaria.
— Às oito e meia? Tens paciência para esperar por mim? Lavei a cabeça e tenho de secar o cabelo...
— Não faz mal! — respondeu Andrea. — Às nove, no mesmo sítio... Apanhamos, o cinco...
Não tinha importância, poderia demorar o tempo que quisesse, ele esperava.
E, de repente veio-lhe a ideia de que Lorenza se arranjava para ele. Ele queria-a e ela estava a arranjar-se para ele. Ninguém a amava no mundo como ele. Cedera, aceitara. Se Andrea não lhe tivesse telefonado, se não a tivesse convidado, para jantar, o cabelo, lavado ou por lavar, ficaria onde estava: na casa do Lido, um cabelo tranquilo, que não correria o risco de que lhe tocasse. E Lorenza não teria a alegria de obrigar as mãos dele a procurá-la. E Andrea pensava que fora uma alegria, que também ela tinha saudades dele. Quando o visse, à espera, a querer abraçá-la, com os olhos brilhantes, ficaria contente. E o que ele queria era abraçá-la, Lorenza também o queria.
Ia a pensar estas coisas, direito a S. Zaccaria, convencido de que não eram só coisas que pensava, que eram coisas que sabia, que Lorenza tinha saudades dele e ficaria contente quando o encontrasse. Ia a pensar estas coisas pela Calle della Mandola e desembocou em S. Angelo, onde viu Alberto Memmo e Gabriele Trevisan, especados, a falarem e a olharem para o campanário de S. Stefano. Que estariam a dizer? Que o campanário era inclinado, torto? Isso já ele sabia, há muito tempo. E fingiu que os não via e continuou a andar. Não queria ninguém, queria chegar a S. Zaccaria.
Naquele momento Lorenza acabara de pentear os cabelos, vestira um casaco e saíra de casa. Fechara a porta, atravessara a rua, e estava à espera do autocarro que a levaria ao embarcadoiro. Tinha, por debaixo do casaco azul, uma blusa branca, calçara sapatos rasos. O rosto, salgado de mar.
Andrea atravessara S. Stefano, deixara a Calle Spizier, chegava a S. Maurizio. O vaporetto de Lorenza ia por cima da lagoa. Andrea continuava a andar, agora em frente do Florian.
Quando se encontraram, em S. Zaccaria, Lorenza estendeu-lhe a mão e ele puxou-lhe a gola do casaco para cima, porque vinha vento de S. Giorgio Maggiore.
— Demorou muito? — perguntou-lhe Andrea.
-Como das outras vezes...
Tinham-se encontrado e era-lhes difícil falarem, tinham vergonha um do outro e do que se passara antes, das vezes em que se haviam magoado. E talvez quisessem que a sua relação se modificasse.
— Onde vamos À Giudecca? — perguntou Andrea.
-Não falaste na Altalena?
-Sim, vamos.
E deu-lhe o braço e puxou-a para si.
— Estão? — perguntou-lhe.
— Aqui... E tu?
— No Campo Manin, sozinho, à tua espera...
E emendou, envergonhado:
— Com muito trabalho. De passagem em Veneza.
Mas porque era o que queria propor-lhe disse:
— Jantas comigo?
Ela aceitou:
—Onde?
— Onde quiseres. Na Altalena?
-Está bem.
— Então, às oito e meia em S. Zaccaria.
— Às oito e meia? Tens paciência para esperar por mim? Lavei a cabeça e tenho de secar o cabelo...
— Não faz mal! — respondeu Andrea. — Às nove, no mesmo sítio... Apanhamos, o cinco...
Não tinha importância, poderia demorar o tempo que quisesse, ele esperava.
E, de repente veio-lhe a ideia de que Lorenza se arranjava para ele. Ele queria-a e ela estava a arranjar-se para ele. Ninguém a amava no mundo como ele. Cedera, aceitara. Se Andrea não lhe tivesse telefonado, se não a tivesse convidado, para jantar, o cabelo, lavado ou por lavar, ficaria onde estava: na casa do Lido, um cabelo tranquilo, que não correria o risco de que lhe tocasse. E Lorenza não teria a alegria de obrigar as mãos dele a procurá-la. E Andrea pensava que fora uma alegria, que também ela tinha saudades dele. Quando o visse, à espera, a querer abraçá-la, com os olhos brilhantes, ficaria contente. E o que ele queria era abraçá-la, Lorenza também o queria.
Ia a pensar estas coisas, direito a S. Zaccaria, convencido de que não eram só coisas que pensava, que eram coisas que sabia, que Lorenza tinha saudades dele e ficaria contente quando o encontrasse. Ia a pensar estas coisas pela Calle della Mandola e desembocou em S. Angelo, onde viu Alberto Memmo e Gabriele Trevisan, especados, a falarem e a olharem para o campanário de S. Stefano. Que estariam a dizer? Que o campanário era inclinado, torto? Isso já ele sabia, há muito tempo. E fingiu que os não via e continuou a andar. Não queria ninguém, queria chegar a S. Zaccaria.
Naquele momento Lorenza acabara de pentear os cabelos, vestira um casaco e saíra de casa. Fechara a porta, atravessara a rua, e estava à espera do autocarro que a levaria ao embarcadoiro. Tinha, por debaixo do casaco azul, uma blusa branca, calçara sapatos rasos. O rosto, salgado de mar.
Andrea atravessara S. Stefano, deixara a Calle Spizier, chegava a S. Maurizio. O vaporetto de Lorenza ia por cima da lagoa. Andrea continuava a andar, agora em frente do Florian.
Quando se encontraram, em S. Zaccaria, Lorenza estendeu-lhe a mão e ele puxou-lhe a gola do casaco para cima, porque vinha vento de S. Giorgio Maggiore.
— Demorou muito? — perguntou-lhe Andrea.
-Como das outras vezes...
Tinham-se encontrado e era-lhes difícil falarem, tinham vergonha um do outro e do que se passara antes, das vezes em que se haviam magoado. E talvez quisessem que a sua relação se modificasse.
— Onde vamos À Giudecca? — perguntou Andrea.
-Não falaste na Altalena?
-Sim, vamos.
E deu-lhe o braço e puxou-a para si.
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