...'primavera', óleo de Sandro Botticelli (1445-1510)E voltaram a encontrar-se, cheios de boas intenções. A saudade vencera. Já não fugiam e atendiam os telefonemas, esperavam. Quando Andrea via Lorenza sentia-se feliz e não tirava os olhos dela até ela chegar. Lorenza ria e perguntava:
— Estás bom?
O Verão de 1978 aproximava-se do fim e Veneza libertava-se dos turistas. Mudava a luz, doce, dourada quando a reflectiam as fachadas do palácio ducal.
“Há dois anos que andamos nisto!”, pensava Andrea.
Desciam as Zattere, até às Fondamenta Foscarini, no meio de pessoas, que pareciam sorrir-lhes e participarem da sua felicidade.
“Há quase dois anos! E foi sempre tão difícil! O que diria Caterina se soubesse que vou outra vez por aqui?”
Nunca mais procurara Caterina e esta também nunca mais o procurara. Encontrara-a num ou noutro sítio onde costumavam ir mas limitaram-se a trocar palavras inconsequentes, como se tivessem aceitado separarem-se. Também dessa vez os amigos serviam de comparsas: eles fingiam que nunca existira nenhuma intimidade e refugiavam-se nos amigos, era com estes que falavam, como se a presença de um e de outro não valesse nada, detalhe entre muitos.
— Adeus — dizia-lhe Caterina, a olhar para ele de baixo porque era pequenina.
E Andrea julgava perceber ironia: pensava ela que ele lhe fugia porque tinha medo, se aproveitara e agora, escapava? E era contrafeito que lhe estendia a mão. Quase-quase dir-lhe-ia que ficasse e falasse com ele. Mas para quê? Desde o princípio, sabiam que seria assim, acabaria assim.
E Caterina —adivinhava-lhe o pensamento— acrescentava, certa de os outros não perceberem:
— Deixa lá, fica para outra vez.
Qual vez? Acabara, fora assim. Não queria importar-se. Agora, das Zattere até às Fondamenta Foscarini, ia com Lorenza e Veneza aparecia-lhe diferente, talvez nunca a tivesse vivido naquele modo, talvez nem ele, nem Lorenza alguma vez a tivessem vivido tão intensamente. Eram atenciosos um com o outro, Andrea pagava-lhe os cafés, oferecia-lhe flores e Lorenza agradecia-lhe. Um dia, em S. Trovaso, exclamou:
— Levas-me a sítios tão bonitos!
E ele viu-a sincera e indefesa: a rapariga que era. Naquele momento, uma pessoa que apreciava a pessoa com quem estava e o sítio onde estava.
— Ainda bem que achas isso -disse Andrea-, agora que saímos da confusão.
-É verdade! Ainda bem que estamos aqui! Olha! — exclamou Lorenza, a rir. — O Rio degli Ognissanti! Temos sorte! Vamos, em boa companhia!
— Desta vez parece que sim...
E, também a rir-se, acrescentou:
— Que Deus nos ajude!
O riso dele era diferente: acreditava que precisavam da ajuda de Deus e não tinha a certeza que bastassem os santos todos do canal. Não compartilhava a alegria espontânea de Lorenza: tinha medo. Era bom de mais.
Lorenza, garrida, os cabelos louros presos, o vestido verde quase aberto, o corpo dourado, aproveitava os últimos fogos do Estio. E perguntou-lhe:
— Precisamos mesmo de Deus? Que confiança é a tua?
Ele não respondeu e aproveitou para a abraçar, e continuaram direitos a S. Sebastiano. Iam contentes, mas iam descobertos: se caísse uma telha, feria-os facilmente. Iam os dois agarrados mas, se olhassem a sério um para o outro, poderiam ver que precisavam de Deus ou de qualquer coisa, Amavam-se e não queriam amar-se. Era uma grande responsabilidade mas não podiam fugir-lhe. Vinha-lhes de dentro a necessidade e acabava por se sobrepor ao medo. Sozinhos, sentiam-se mal, encostavam-se às paredes que não lhes traziam nada e só lhes recordavam o que não tinham.
Lorenza apertou-o contra si:
— Se não te tivesse, não tinha nada.
— De certeza?
—Que vale o resto? Já reparaste no tempo que perdemos? Lembras-te quando entraste, no cais da Accademia? Os dois a espreitarmo-nos. E depois tu vieste falar-me.
—Oxalá seja verdade, oxalá isto dure!
— Por que é que não acreditas? — exclamou Lorenza, angustiada.
E, a acusar-se, acrescentou:
— Desculpa. Eu não sei. Sou tua amiga, mas não sei amar-te. É inútil. Não sei lidar com os outros.
Andrea pensou que era pena que o passeio acabasse assim:
— Falhei.
—Em quê?
— Estás bom?
O Verão de 1978 aproximava-se do fim e Veneza libertava-se dos turistas. Mudava a luz, doce, dourada quando a reflectiam as fachadas do palácio ducal.
“Há dois anos que andamos nisto!”, pensava Andrea.
Desciam as Zattere, até às Fondamenta Foscarini, no meio de pessoas, que pareciam sorrir-lhes e participarem da sua felicidade.
“Há quase dois anos! E foi sempre tão difícil! O que diria Caterina se soubesse que vou outra vez por aqui?”
Nunca mais procurara Caterina e esta também nunca mais o procurara. Encontrara-a num ou noutro sítio onde costumavam ir mas limitaram-se a trocar palavras inconsequentes, como se tivessem aceitado separarem-se. Também dessa vez os amigos serviam de comparsas: eles fingiam que nunca existira nenhuma intimidade e refugiavam-se nos amigos, era com estes que falavam, como se a presença de um e de outro não valesse nada, detalhe entre muitos.
— Adeus — dizia-lhe Caterina, a olhar para ele de baixo porque era pequenina.
E Andrea julgava perceber ironia: pensava ela que ele lhe fugia porque tinha medo, se aproveitara e agora, escapava? E era contrafeito que lhe estendia a mão. Quase-quase dir-lhe-ia que ficasse e falasse com ele. Mas para quê? Desde o princípio, sabiam que seria assim, acabaria assim.
E Caterina —adivinhava-lhe o pensamento— acrescentava, certa de os outros não perceberem:
— Deixa lá, fica para outra vez.
Qual vez? Acabara, fora assim. Não queria importar-se. Agora, das Zattere até às Fondamenta Foscarini, ia com Lorenza e Veneza aparecia-lhe diferente, talvez nunca a tivesse vivido naquele modo, talvez nem ele, nem Lorenza alguma vez a tivessem vivido tão intensamente. Eram atenciosos um com o outro, Andrea pagava-lhe os cafés, oferecia-lhe flores e Lorenza agradecia-lhe. Um dia, em S. Trovaso, exclamou:
— Levas-me a sítios tão bonitos!
E ele viu-a sincera e indefesa: a rapariga que era. Naquele momento, uma pessoa que apreciava a pessoa com quem estava e o sítio onde estava.
— Ainda bem que achas isso -disse Andrea-, agora que saímos da confusão.
-É verdade! Ainda bem que estamos aqui! Olha! — exclamou Lorenza, a rir. — O Rio degli Ognissanti! Temos sorte! Vamos, em boa companhia!
— Desta vez parece que sim...
E, também a rir-se, acrescentou:
— Que Deus nos ajude!
O riso dele era diferente: acreditava que precisavam da ajuda de Deus e não tinha a certeza que bastassem os santos todos do canal. Não compartilhava a alegria espontânea de Lorenza: tinha medo. Era bom de mais.
Lorenza, garrida, os cabelos louros presos, o vestido verde quase aberto, o corpo dourado, aproveitava os últimos fogos do Estio. E perguntou-lhe:
— Precisamos mesmo de Deus? Que confiança é a tua?
Ele não respondeu e aproveitou para a abraçar, e continuaram direitos a S. Sebastiano. Iam contentes, mas iam descobertos: se caísse uma telha, feria-os facilmente. Iam os dois agarrados mas, se olhassem a sério um para o outro, poderiam ver que precisavam de Deus ou de qualquer coisa, Amavam-se e não queriam amar-se. Era uma grande responsabilidade mas não podiam fugir-lhe. Vinha-lhes de dentro a necessidade e acabava por se sobrepor ao medo. Sozinhos, sentiam-se mal, encostavam-se às paredes que não lhes traziam nada e só lhes recordavam o que não tinham.
Lorenza apertou-o contra si:
— Se não te tivesse, não tinha nada.
— De certeza?
—Que vale o resto? Já reparaste no tempo que perdemos? Lembras-te quando entraste, no cais da Accademia? Os dois a espreitarmo-nos. E depois tu vieste falar-me.
—Oxalá seja verdade, oxalá isto dure!
— Por que é que não acreditas? — exclamou Lorenza, angustiada.
E, a acusar-se, acrescentou:
— Desculpa. Eu não sei. Sou tua amiga, mas não sei amar-te. É inútil. Não sei lidar com os outros.
Andrea pensou que era pena que o passeio acabasse assim:
— Falhei.
—Em quê?
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