A edição portuguesa (da saudosa e exemplar Editorial Inquérito), com magistral tradução de José Marinho (aconselhada pelo inesquecível Padre Pôpo, que dirigia a Biblioteca Municipal da Guarda...), onde aprendi a grandeza de Tolstoi... “Para que os leitores me entendam, só peço uma coisa: que o leitor seja sensível e procura, nos meus textos aquilo que lhe toque o coração. Há duas maneiras de cantar: com a garganta e com o peito. A voz da garganta é mais suave, porém não atinge a alma... Se, na ária mais banal, oiço uma nota que chega do fundo do peito, as lágrimas vêm-me aos olhos. Em literatura, é a mesma coisa: não podemos escrever ou com a cabeça, ou com o coração. Assim que começo a escrever com a cabeça, paro e procuro escrever com o meu coração”.
Tolstoi, citado por Ivan Bounine, "La délivrance de Tolstoi"
Mestre João Gaspar Simões, que todo lo sabia e ensinou a ler gerações de portugueses, insurgia-se contra dois defeitos muito nossos:
o gosto barroco,
não sabermos equilibrar inteligência e sensibilidade, nos textos literários.
E tinha razão: somos “prosadores” mais do que novelistas ou poetas.
Entregamo-nos ao floreado, ao sentimental, ao automatismo, em que julgamos transmitir o nosso empolgamento interior.
E sai um pastelão, que não transmite nada.
Gaspar Simões considerava Guerra e Paz o romance perfeito: o modelo.
E Tolstoi, nas linhas que transcrevi, fala de cabeça e coração,
mas não ignora a necessidade do equilibro entre a inteligência e a sensibilidade, na obra literária.
Os seus romances, novelas e contos são exemplo.
Tolstoi alertava acerca de outro tipo de falsificação:
o trabalhinho do literato espertinho, que usa a habilidade para aproveitar processos alheios
e esmaga, com erudição de cordel, os parolos que embarcam na sua literatice, desonesta, no fim e ao cabo...
Já, por aí, anda um a espreitar, com filáucias de "génio", olhar profundo, e a pedir prefácios e certificados de nobilizável a anciãos distraídos, empurrado pelos serviços de relações públicas do editor e a conivência de outros matreiros, pandilha amiga...
Caro Manuel,
ResponderEliminarDava um dia de trabalho para saber de quem fala!
Abraço,
Daniel Rocha
Seria um crime contra a humanidade! Sobretudo, contra a classe operária! O dito não vale nem uma pastilha elástica... quanto mais um dia de trabalho!...
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