A memória de um louco ou a nostalgia de Alcácer Quibir?Só cá faltava o D. Sebastião
por Manuel António Pina
"Cesse tudo o que a Musa antiga canta", acabem estudos e complexas análises económicas e financeiras, longos debates políticos, greves gerais e manifestações de rua. A solução para o desemprego, as reduções de salários e pensões, o fim das prestações sociais de pobres e necessitados, a miséria galopante, os custos da dívida pública, em resumo, tudo e mais umas botas, é a Monarquia.
A revelação foi feita ontem, dia dito da Restauração da Independência , o que quer que "independência" actualmente signifique num país como o nosso (comemorar-se-ia ontem também, se houvesse motivos para comemorar, o aniversário do "Porreiro, pá" de Sócrates a Barroso, ambos felicíssimos com a aprovação do Tratado de Lisboa).
Foi Duarte Pio João Miguel Gabriel Rafael de (uff!) Bragança, um imigrante suíço naturalizado que se diz "duque" e as revistas do coração chamam de "rei", quem, chegado da Disneylândia numa manhã de nevoeiro, trouxe a boa- nova. A crise actual é "comparável à dos tempos da Primeira República" e, ao contrário do que se julga, tem fácil solução: ponham-lhe, a ele, uma coroa ("de plástico, que era mais barato", como diz O'Neill) na cabeça e a crise, zás!, evapora-se, como o terçó do olho da velhinha de Vila Franca evaporando-se por obra de Nuno Álvares Pereira.
Personagens como Duarte Pio João etc. alimentam-me a absurda esperança de que não vivamos num país real mas num "cartoon".
transcrito com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 02/12/10
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