domingo, 12 de dezembro de 2010

Um coração simples

'Gente de Quadrazais', de Elizabete Eufêmia Nabais Rosa





“El alma tenías/ tan clara y abierta, que yo nunca pude/ entrarme en tu alma”.

Os versos são de Pedro Salinas e neles li o abismo que pode separar os amantes.

Virada a última página de “Maria Mim”, o romance quadrazenho de Nuno de Montemor, lembrei-os.

Para trás, envelhecida, magoada e abandonada, ficava a heroína: Maria Mim. Adiante, rebuçado no egoísmo e couraçado de incompreensão, ia Júlio Marinho, o sedutor. Não que lhe houvesse tocado: roubara-lhe a alma. Tinham passado quarenta anos.

O autor contara a história. Os apaixonados mais uma vez se separavam, agora irremediavelmente, depois de se cruzarem, na romaria da Senhora da Póvoa, na raia beirã.

Reconhecemos no livro influência de Camilo? A bondade de Júlio Dinis? O regionalismo de Aquilino? Não é obra de um grande escritor, é de autor menor? Que interessa, se ali deixou um belo retrato de mulher? Imagem de beirã, figura inesquecível de um universo duro, agreste, verdadeiro... A arte, se acontece, está acima dos julgamentos. E o artista Nuno de Montemor recriou a infelicidade de uma paixão terrível e, tragicamente, repetida: aquela que vai arder em desencontro de almas. Isso conta e fica, para sempre.

Há egoísmo, irresponsabilidade e covardia, no citadino Júlio Marinho. A rapariga de Quadrazais, Maria Mim, entrega-se ao amor, com a candura e o alvoroço das almas simples. A pureza assim não chega Marinho, homem comum. A simplicidade e a sinceridade, são do absoluto –não são deste mundo.

E, no final, o romance atinge grande altura: a desamparada brilha e dói qual heroína de Georges Bernanos: Maria Mim, anho sacrificado, a quem o céu já abriu as portas.


Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 12/12/10

2 comentários:

  1. Começo por aqui:
    “El alma tenías/ tan clara y abierta, que yo nunca pude/ entrarme en tu alma”.

    É sublime a aparente contradição... Será aparente?
    A história de uma rapariga simples fez-me pensar. Há pouco tempo aprendi que ninguém gosta do que é claro/verdadeiro e sincero, não fica bem a "fazer sala" porque não se domina uma série de parâmetros.
    Desculpe este pensamento corrosivo!
    Boa noite!

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  2. É que a simplicidade, a transparência e a franqueza desarmam: é que são tão raras que as pessoas não as vêem... passam ao lado... Ou pode acontecer que não gostem... e agridam... O seu pensamento não é corrosivo: é certo. A bondade pode ofender os que sabem que não a praticam e sentem-se acusados, denunciados... Pedro Salinas aponta isso... e acusa-se a si próprio de inferioridade, diante de quem o ultrapassava...

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