Guarda: a cidade onde a alma respira melhorSalvar do esquecimento o que define o perfil de uma terra é trabalho sagrado.
A literatura, a música, o artesanato, personalidades, eventos, quanto traduza e afirme a sua identidade.
O Núcleo Cultural da Guarda publica a colecção “O fio da memória”, onde tem vindo a reunir elementos preciosos, e leva a cabo um trabalho inestimável. Os cadernos editados aproximam a centena. Nenhum desnecessário. Acrescentam sempre alguma coisa importante. É o caso do recente número 93: “J. Pereira da Silva, Médico, Filantropo e Humanista”, de Isabel Coelho Antunes.
Em poucas páginas, a autora invoca alguém cujo carácter independente e limpo encarnou as contradições e dificuldades da cidade, nos anos 40 e 50 do século passado.
Unamuno, que a visita, em 1908, assinala o interesse dos egitanienses pela Cultura. Mas esse desejo viria a sofrer o recrudescimento de um clericalismo obsoleto e a tacanhez, o cinzento asfixiante do salazarismo.
No entanto, a luz nunca se apagou. Crescido na Guarda, lembro bem o Dr. Pereira Silva. Era um homem extraordinário: perspicaz, generoso, integérrimo clínico. Certamente, um humanista cristão. Ele e outras figuras, os advogados Bigotte e João Gomes, o Dr. Bernardo, entre poucos mais, preservaram o fogo do “alto monte da sagrada Beira” (Augusto Gil dixit).
Tive a honra de o conhecer e der ser seu jovem amigo e admirador –e o adolescente é avaro em admirações... No Dr. José Pereira da Silva, impressionava-me a simplicidade das atitudes, onde adivinhei a fidalguia da coerência moral. Não se dava ares: dava-se aos outros. Nunca o esqueci, porque nunca esquecemos quem nos ajuda a entender a vida.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 26/12/2010
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