
Enzo Bearzot, seleccionador da Itália, em 1982, quando ganhámos o Campeonato do Mundo de Futebol, em MadridQuando ganhámos: exactamente: quando ganhámos.
A Itália era e é a minha segunda Pátria.
Vivia lá há 7 anos, era um dos que, todos os dias, iam à Piazza Navona. Ao Campo Dè Fiori. Ao Pantheon.
Um dos que, todos os dias, almoçavam nas osterie ali à volta.
A Itália era e é a minha segunda Pátria.
Recebeu-me bem e deu-me tudo.
Amor, beleza, o viver simples e directo do dia-a-dia, que ninguém sabe se o dia seguinte virá.
A Itália de Pertini. A Itália livre. A Itália que queria ser socialista.
Não te assustes.
Ainda era o tempo em que a política não era uma carreira: era um ideal.
Socialismo: igualdade, fraternidade, liberdade.
Pois, direitinho da revolução francesa: que mudou tudo.
Era a nossa Itália.
Por isso é que eu digo: ganhámos.
Eu tinha a bandeira tricolor à janela e só a minha mulher é que me impediu de tomar banho numa das fontes da tal Piazza Navona.
Atravessámos Roma, no bolinhas, um Fiat 600, uma maravilha! Quase a derrapar, a bater, e tão felizes!
O meu cão Zac ia no banco de trás, a ladrar, a festejar.
Nós tínhamos ganho!
Com Rossi, Gentili, Tardelli, Zoff...
E com um que falhou um penalti e fez dar um pulo desesperado ao Presidente Pertini, que o rei Juan Carlos acalmou...
Mas ganhámos à mesma.
Foi um dos dias mais felizes da minha vida de 15 anos, em Roma.
Hoje soube que Bearzot morreu.
Às vezes, as pessoas morrem.
A vida continua.
Ah!, continua!
Mas seria pouca coisa, se não lembrasse, agora, esse momento.
Seria um homem sem passado –sem as alegrias de ontem.
Interrompi as férias, para assinalar a vida de Enzo Bearzot.
Não vim assinalar a morte.
Vim recordar a vida que ele viveu e a alegria que nos trouxe: campeões do mundo de futebol, fora de casa.
A morte não é para aqui chamada: é um pormenor da vida. Nada mais.
p.s. em italiano, aqui lhe deixo:
Parabéns pelo que acabou de escrever, Manuel.
ResponderEliminarSão efectivamente estes gestos, que ultrapassam a mediocridade humana.
Bom Natal para si e toda a família.
(helder)
Obrigado! O que vem do coração não pensa em mais nada senão nisso: dizer do que sente. No caso, uma infinita saudade. Não era outro tempo; hoje é que é mais difícil ser como se sonha ser. Mas hoje, como ontem, quando ainda não começaram a envelhecer, as pessoas acreditam que o mundo pode ser melhor e que bom dia pode querer dizer bom dia. Ou, por exemplo, como eu ainda posso dizer-lhe: Feliz Natal, para si e todos os que ama!
ResponderEliminarUm hino à vida, o texto que Manuel Poppe escreve acima. Não só à vida, como aos ideais.
ResponderEliminarFelicito-o pela sua visão humanista.
Boas férias, um Feliz natal e um Próspero Ano Novo para si e para todos os que lhe são queridos.
A. M Sousa
A melhor forma de celebrar a morte e a saudade de uma época em que os ideais ainda eram cumpridos.
ResponderEliminarSaudade no bom sentido, saudade do Panteão recordado.
Boa noite e Feliz Natal em família!
Amigos todos que vieram aqui: só agora parto par o tal Alentejo. Ontem, um almoço daqueles à portuguesa antiga, com amigos que tiveram a fantástica genrosisade de vir da Guarda até aqui,a Alice dos olhos lindos, o Daniel da poesia requintada, o António dos pés bem assentes na terra, um almoço de sopinha de verduras frescas e um bacalhao de truz e vinho tinto alentejano, de Borba, bolo rei e um Porto delicioso, que a Alice trouxe... amizade e alegria a rodos... adiaram a partida...
ResponderEliminarAmigos: obrigado e Feliz Natal!
Nota: os que vieram aqui ao post comentar amigamente e os que vieram, ontem, a esta casa, transformar a banalidade de um tempo cinzento (há-de voltar a luz!)em dia de festa, com aquela coisa maravilhosa que é a sinceridade beirã!
ResponderEliminarUm Feliz Natal, caro amigo!
ResponderEliminarNão tem sinceridade beirã, mas tem a garra ribatejana, e a calma alentejana.