domingo, 19 de dezembro de 2010

Carlos Pinto Coelho



A Cultura em Portugal não tem crédito na Bolsa. Não me refiro às farsas que alimentam o mercado e às paródias, preferência dos mercantilizadores: “pão e circo” denunciado e ridicularizado pelo romano Juvenal. Inconsciência, incultura, indiferença. Eis ao que aponta a sociedade desumanizada em que vivemos. A Cultura não dá dinheiro, logo não serve. A telenovela razoavelmente pornográfica, o bobo a vender publicidade, a conversa de chacha sobre um tema que se degrada –são as coisas que atraem e se vendem. E rendem. Compensam os investimentos. Porque se aposta na ignorância. Os que remam contra essa barbaridade têm a coragem e o sonho de D. Quixote. Têm um ideal: o homem que não verga. Senhor de si e do seu destino. E são os D. Quixote que empurram o mundo e ajudam a sair do atoleiro aqueles que nele esbracejam –e a escapar às ratoeiras que os tais mercadejantes-agiotas armam, sempre “actualizadas”. Carlos Pinto Coelho foi um Quixote. Ofereceu a vida à Cultura. Artista, fotógrafo de rara qualidade, confirmou-se, em “Acontece”, excelente produtor de televisão. Homem íntegro e independente, não acasalou com nenhum bando literato nem sacrificou a nenhum bonzo político. Em 2003, as autoridades consideraram despesa supérflua “Acontece”, na RTP desde 1994, e mandaram que se cancelasse. Esse programa fez, pela cultura portuguesa, o que mais nenhum outro fez até agora. Explicam-no a inteligência do criador e a liberdade de opinião e de escolha. Valores, hoje, condenados? Carlos Pinto Coelho bateu-se por eles, frontalmente. Remou contra a maré. Paladino de causa sacrossanta, assim será recordado.


Publicado na Págia de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

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