Imagem de Shylock, o prestamista da peça de Shakespera, O Mercador de Veneza. E, de facto, o nosso dinheiro é pesado na balança de mercadores-usurários...Uma espécie de democracia
por Manuel António Pina
Como a generalidade dos portugueses, o leitor não fará provavelmente a mínima ideia de quem seja o sr. Oli Rehn. Devia fazer porque o sr. Oli Rehn é comissário europeu dos Assuntos Económicos e extraordinário ventríloquo, conseguindo, de Bruxelas, colocar a voz em Portugal através do actual Governo (ou de qualquer outro). De facto, quando o dr. Teixeira dos Santos ou o primeiro-ministro anunciam "medidas" limitam-se a mexer os lábios; quem realmente fala é o sr. Oli Rehn.
A coisa funciona em "mise en abîme" pois a Comissão Europeia e o sr. Oli Renh também só mexem os lábios; quem fala quando eles falam é, por sua vez, a voz dos "mercados", ou seja, da banca e da usura.
O leitor (e eleitor) estará convencido de que elegeu um Governo e um Programa de Governo. Desiluda-se, elegeu feitores. Da banca, dos "mercados", da UE e, por fim, do sr. Oli Rehn - que anunciou no dia 28, em Bruxelas, que "Portugal preparará (...) reformas estruturais no mercado de trabalho" - e do sr. Didier Reynders, ministro das Finanças da Bélgica que, "em nome de Portugal", assegurou que o Governo que o leitor elegeu irá fazer "reformas nos sectores da saúde e transportes, tal como uma reforma do quadro orçamental". E, se eles o asseguraram, não tenha o leitor dúvidas de que o Governo cumprirá, independentemente do que estiver no Programa de Governo.
Consta que Portugal é um Estado soberano. E uma democracia.
Transcrito, com a devida vénia, do Jornal de Notícias de 01/12/10
Olá caro Manuel.
ResponderEliminarAcabei a visita diária ao seu "Sobre o Risco".
Tem transcrito vários textos do Manuel António Pina. Conhecia-o vagamente das revistas Visão ou Sábado, não lembro bem. Não lhe dava muita importância, desatenção minha.
Comecei a lê-lo atentamente pelo seu blogue, assim, o Manuel Poppe ficará como responsável pela minha mudança de atitude.
Este texto, "Uma espécie de democracia", trouxe-me à memória um livro que possuo e, ao que julgo, calcule, não se encontra à venda em Portugal! (para mim, caso não muito claro). Sobre ele, gostaria de lhe falar, mas por outra via.
Cumprimentos.
(helder)
Vou buscar uma solução.
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