segunda-feira, 29 de novembro de 2010

O aniversário de uma cidade

Teatro Municipal da Guarda


Não é uma cidade qualquer: é o alto monte da sagrada Beira que faz 811 anos! A Guarda, a festejada, é um monumento. Talhada em granito, resiste a tudo. Sobreviveu aos invernos, ao granizo e aos maus costumes de ultraconservadores e oportunistas que a queriam e querem engrolar e de que ri, a reinventar-se e a recusá-los, a capeá-los. Tem-se a si própria, nem feia, nem farta: fiel e nobre. Aguenta a crise, graças ao bucho, à febra, à bondade das últimas vacas do Jarmelo, às verduras verazes e à água cristalina que lhe manda a Serra. E à alma inquebrantável dos que lá vivem. Celebra, também o centenário da “sua” República. Aqui, onde vim compartilhar a alegria, há cem anos, um tal António Bigodes declarou ter-se tornado Portugal República e a Guarda, republicana. A República da esperança e do sonho. E, saída do génio e da cabeça de alguns, surgiu a ideia de materializar a labuta da libertação. Ei-lo apresentado no fabuloso Teatro Municipal da Guarda, que rivaliza com todos e se afirma mundo fora. Desfilaram e desfilam quatrocentas figuras genuínas, artistas, gente da terra, a recuperarem a História e os heróis. A recriarem de modo superior uma fábula que passa a vida viva. Há que destacar os nomes dos principais responsáveis: Américo Rodrigues, coordenador e encenador; Pompeu José, encenador e curador dos actores; César Prata, o homem da música. O guião da grande aventura é de Américo Rodrigues (cuja polimórfica criatividade enerva os broncos arrivistas locais, no desespero da própria incultura, a reclamarem-lhe a cabeça) e de José Tavares e Pompeu José. Um espectáculo empolgante, inesquecível, exemplar.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 28/11/10

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