'Retrato de mulher ou Le Déjeuner", 1910Aquilino Ribeiro era fiel aos amigos e generoso: zelava por eles. Eis qualidades admiráveis. Não só procurou salvar do esquecimento Manuel Jardim, de quem, ontem, aqui falámos. Há outros. Por exemplo, Brito Camacho, longamente evocado em ‘De Meca a Freixo de Espada à Cinta”. Não precisaria este tanto quanto Jardim do empurrão de Aquilino? Certamente que não: quem tem olhos para ler e elementar bom gosto reconhece em Brito Camacho um dos melhores contistas do Alentejo e um dos primeiros novelistas do nosso século dezanove.
A Jardim, levou-o o tempo e o desaparecimento das obras. Andam por aí, ignoradas? Perdeu-as ele? Deitaram-nas fora os alarves que as tiveram nas mãos?
Não sei responder. Quem mais souber, que diga. Consegui desencantar três, online. A reproduzida ontem, a de aí acima e uma outra, que vos mostro amanhã –a fazer render o peixe, bem na espinha...
Quero, ainda, transcrever dois parágrafos magistrais do estudo de Aquilino, inserto, como vos disse, em ‘Por Obra e Graça’:
‘Manuel Jardim caiu neste turbilhão de arte [Paris], de vida, de clima, como um tremedal. Nos primeiros tempos o esforço que fez foi descobrir-se. Ter individualismo como Manet, como Puvis [Pierre Puvis de Chavannes], como Cézanne! Qualquer outra coisa que não fosse realizar-se singularmente valia a pena?
No rodar dos anos, com os invernos parisienses de céu forrado de zinco; a primavera alegre de sedas e de flores pelos parques; o estio: inglesas de baedeker aberto na palma da mão como estante, o sol a estalar no zimbório doirado dos Inválidos –foi embebedando-se de Paris. Pela alma e pelo corpo passaram-lhe as dura vicissitudes de homem desterrado: dias felizes de mão fácil e olho esperto com um corpinho vibrátil de rapariga ao lado para tocar como um violino; dias aziagos, sem amor, sem fé e sem pão, longos como eternidades. Mas ainda nas horas do Diabo a personalidade lhe crescia. A senhora vizinha, o rapin d’en face, a mulher da crémerie não só não vinham meter o nariz na sua ânsia e desespero como nem se davam ao incómodo de o carpir. Ficava ele só a bracejar com as suas misérias.’
A Jardim, levou-o o tempo e o desaparecimento das obras. Andam por aí, ignoradas? Perdeu-as ele? Deitaram-nas fora os alarves que as tiveram nas mãos?
Não sei responder. Quem mais souber, que diga. Consegui desencantar três, online. A reproduzida ontem, a de aí acima e uma outra, que vos mostro amanhã –a fazer render o peixe, bem na espinha...
Quero, ainda, transcrever dois parágrafos magistrais do estudo de Aquilino, inserto, como vos disse, em ‘Por Obra e Graça’:
‘Manuel Jardim caiu neste turbilhão de arte [Paris], de vida, de clima, como um tremedal. Nos primeiros tempos o esforço que fez foi descobrir-se. Ter individualismo como Manet, como Puvis [Pierre Puvis de Chavannes], como Cézanne! Qualquer outra coisa que não fosse realizar-se singularmente valia a pena?
No rodar dos anos, com os invernos parisienses de céu forrado de zinco; a primavera alegre de sedas e de flores pelos parques; o estio: inglesas de baedeker aberto na palma da mão como estante, o sol a estalar no zimbório doirado dos Inválidos –foi embebedando-se de Paris. Pela alma e pelo corpo passaram-lhe as dura vicissitudes de homem desterrado: dias felizes de mão fácil e olho esperto com um corpinho vibrátil de rapariga ao lado para tocar como um violino; dias aziagos, sem amor, sem fé e sem pão, longos como eternidades. Mas ainda nas horas do Diabo a personalidade lhe crescia. A senhora vizinha, o rapin d’en face, a mulher da crémerie não só não vinham meter o nariz na sua ânsia e desespero como nem se davam ao incómodo de o carpir. Ficava ele só a bracejar com as suas misérias.’
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