sábado, 13 de novembro de 2010

O labirinto interior

'A irresolução resolvida' óleo de Maria Helena Vieira da Silva


Clarice Lispector cresceu e aprendeu a vida no Brasil. E o que trazia, com ela? A herança de uma família de judeus religiosos e a marca da errância: a constante insatisfação e a busca do sentido das coisas. Benjamim Moser cita, na biografia (Civilização), a frase de uma amiga da escritora: “Nunca vi uma mulher sofrer tanto”. O pai, que amava, confessar-se-ia “um homem que se perdeu”. E era isso que Clarice não queria: a frustração. Encontrar-se, no dédalo da alma –eis o desejo maior. E sofrimento: “Meu drama é que sou livre”. Uma sua personagem, bem ela, como todas, apontou “o destino dos soltos na terra, dos que não medem suas acções pelo Bem e pelo Mal”. Mas voltava sempre a exigência ética, os princípios estudados pelos antepassados no Antigo Testamento, a pergunta: o que está certo? Não queria limitar-se (e julgo ouvir “O Imoralista”, de Gide): “respeite a você mais do que aos outros, respeite suas exigências, respeite mesmo o que é ruim em você”. E, no entanto, foi uma mulher generosa, apaixonada e capaz de sacrifícios. Girou no próprio labirinto. Ardeu? Certamente –e, a tentar apagar o incêndio interior, escreveu, nunca parou de escrever. João Gaspar Simões, que a conheceu e admirou, tentou caracterizar-lhe a obra: “É um hermetismo que tem a consistência do hermetismo dos sonhos. Haja quem lhe encontre a chave”. Em busca da resposta à própria angústia, da senha conciliadora do imaginário e do real, que se lhe impunham abraçados, andou Clarice. Nos livros admiráveis, de estilo pessoalíssimo, poético, concreto e fantástico, a querer ultrapassar a linguagem, abre-nos um universo apaixonante.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 14/11/10

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