A gare de Astapovo, onde Leão Tolstoi se refugiou, para morrer, em 20 de Novembro de 1910UM ESCRITOR FORA DO TEMPO
A febre canibalesca de apagar os mortos encontra, às vezes, muros de granito, que resistem. Foi na pedra que Rodin eternizou Balzac. Outros dificilmente resistem ao silêncio criado pela ganância dos arrivistas. Por isso nada ou quase nada se vai sabendo de Afonso Duarte ou José Régio, de Branquinho da Fonseca ou Irene Lisboa –e morreram “ontem”. Há horas felizes. De visita ao Porto, dei um pulo à preciosa Livraria Lumière, Travessa de Cedofeita, e vi entrar um jovem estudante que procurava “Guerra e Paz”, de Leão Tolstoi –apesar do homem de Iasnaia Poliana ser nome de que se fala e por aí se fica. Não se estuda, sempre mais tísicos e chochos os programas do ensino. Acontecia que o rapaz escolhera por si e tinha bom gosto: comprou e levou a obra-prima. Escolheu o Mestre do romance? Talvez sim ou não. O que ninguém discute é a grandeza dos seus livros. A um principiante, depois Nobel -Ivan Bunine-, diria: “Escreva, já que o deseja, mas não pode ser esse o fim nem a justificação da sua vida”. E, no “Diário”, anota: “Por que razão temos de viver? Se não tem sentido nem objectivo, se vivemos por viver, não há razão para continuar a viver”. Bunine fala do sorriso de Tolstoi, encantador e triste; outros denunciam paixões atormentadas e o calvário dos seus dias com a mulher, Sofía Andreievna (o ensaio de Ramón Jose Sender, em Tres ejemplos de amor y una teoria, Alianza Editorial Madrid, analisa, superiormente, o drama); nós lembraremos a fuga final, agonia e morte, a sofrer sozinho, recusando receber familiares e amigos, no apeadeiro perdido de Astapovo. Erguera-se contra as injustiças sociais, publicara panfletos violentos, e a longa novela militante, Ressurreição, obra menor, em que se entrelaçam a denuncia social e o misticismo e se consagra o tolstoismo, espécie de doutrina que marcou o seu tempo e levou o republicano Jaime Magalhães Lima a Iasnaia Poliana, já então lugar de peregrinação de intelectuais e seguidores. E, afinal, tudo somado, deixava, aquilo de que quisera separar-se e a que confiara alma e sangue: o formidável romance da tragédia das almas. Tal qual o nosso desesperado Camilo.
A febre canibalesca de apagar os mortos encontra, às vezes, muros de granito, que resistem. Foi na pedra que Rodin eternizou Balzac. Outros dificilmente resistem ao silêncio criado pela ganância dos arrivistas. Por isso nada ou quase nada se vai sabendo de Afonso Duarte ou José Régio, de Branquinho da Fonseca ou Irene Lisboa –e morreram “ontem”. Há horas felizes. De visita ao Porto, dei um pulo à preciosa Livraria Lumière, Travessa de Cedofeita, e vi entrar um jovem estudante que procurava “Guerra e Paz”, de Leão Tolstoi –apesar do homem de Iasnaia Poliana ser nome de que se fala e por aí se fica. Não se estuda, sempre mais tísicos e chochos os programas do ensino. Acontecia que o rapaz escolhera por si e tinha bom gosto: comprou e levou a obra-prima. Escolheu o Mestre do romance? Talvez sim ou não. O que ninguém discute é a grandeza dos seus livros. A um principiante, depois Nobel -Ivan Bunine-, diria: “Escreva, já que o deseja, mas não pode ser esse o fim nem a justificação da sua vida”. E, no “Diário”, anota: “Por que razão temos de viver? Se não tem sentido nem objectivo, se vivemos por viver, não há razão para continuar a viver”. Bunine fala do sorriso de Tolstoi, encantador e triste; outros denunciam paixões atormentadas e o calvário dos seus dias com a mulher, Sofía Andreievna (o ensaio de Ramón Jose Sender, em Tres ejemplos de amor y una teoria, Alianza Editorial Madrid, analisa, superiormente, o drama); nós lembraremos a fuga final, agonia e morte, a sofrer sozinho, recusando receber familiares e amigos, no apeadeiro perdido de Astapovo. Erguera-se contra as injustiças sociais, publicara panfletos violentos, e a longa novela militante, Ressurreição, obra menor, em que se entrelaçam a denuncia social e o misticismo e se consagra o tolstoismo, espécie de doutrina que marcou o seu tempo e levou o republicano Jaime Magalhães Lima a Iasnaia Poliana, já então lugar de peregrinação de intelectuais e seguidores. E, afinal, tudo somado, deixava, aquilo de que quisera separar-se e a que confiara alma e sangue: o formidável romance da tragédia das almas. Tal qual o nosso desesperado Camilo.
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 20/11/10
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