Haiti: apenas uma notícia?Os desígnios do egoísta são compreensíveis: enraízam no medo. Tudo quanto está além do próprio pequenino universo, do sossego e da segurança que agasalham, representa mar revolto, incerto, desconhecido. E o conhecido é, para cada um, e apenas, o lugar -o seu lugar- em que finca os pés e não treme, não se agita, garantindo o dia a dia harmonioso –fiador do pão que ele não partilha. O mais desinteressa-lhe: é-lhe indiferente. Há, para o egoísta, neste mundo, um único horizonte: aquele que divide com os outros cuja avareza e a desumanidade acata, se não agredirem as suas. Acaso lhe cheguem notícias de fora escuta-as, discute-as, comenta-as. Pode fazer um, dois, três gestos, dar uma esmola, protestar contra as injustiças, ao borralho ou à mesa de café, ou mesmo numa folha qualquer. Graus de indiferença. Isso, quando não recusa as novidades (que devia adivinhar, se olhasse à volta a miséria galopante) e as ignora. Deita-as às ortigas, se o desautorizam, desnudam –e apontam a sovinice, a imoralidade, a mesquinhez, que erigiu como modo de vida. Saltam-lhes dos olhos e saltam aos olhos a crocodilidade das lágrimas espremidas. Tu fitas o vizinho, e pensas: “Ali vai o bandido”; eu imito-te. Ou exagero? Temos consciência? Vencemos a indiferença? Não sei. Gostava de responder que não virámos as costas e queremos remar contra a maré que desvaloriza a vida. Concedo -temendo ceder à justificação do egoísmo-: querer é já apetecer outra atitude, reconhecer um valor, ir mais longe do que a esmola ou o lamento inconsequentes. Mas nós queremos de verdade? Olha para o Haiti, o terramoto, a cólera. Sim, é nisso que estou a pensar. O que fizemos? O que deixámos fazer? O que deixamos fazer?
Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 21/11/10
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