domingo, 7 de novembro de 2010

O mundo de Clarice

Clarice Lispector


Onde conhecemos o artista? Na história da sua vida ou no que fez? O artista tal e qual, bem entendido: a verdade da pessoa cujas obras nos interessaram. É uma questão muito difícil de resolver. Marcel Proust ecreveu “Contre Saint-Beuve” -ponto de referência-, onde acusa de leviandade o crítico francês por julgar os autores segundo os seus comportamentos. Segundo Proust, a verdade do artista reside na obra, porque aí, essa lhe escapa da mão e revela-se, livre. A obra autonomiza-se, mas carrega o imo de quem a criou. No entanto, muitas biografias nos ajudaram a compreender os biografados. É o caso de duas obras-primas dessa arte (a biografia participa da expressão artística, já veremos porquê): as evocações de Eça e de Fernando Pessoa, trabalhos fundamentais de Gaspar Simões. Ateve-se o crítico à anedota? Não: mergulhou na vida dos dois homens, interiorizou-a. E recriou-os, iluminando-os. Deixou-nos o romance de Eça e Pessoa –e fez arte. Vem isto a propósito do excelente “Clarice Lispector, Uma Vida”, de Benjamin Moser (Civilização Editora). Quem admire a grande novelista, ali a reencontra, em corpo inteiro. Escritora brasileira? Clarice (1920-1977) nasceu em Chelchelnyk, na Ucrânia, filha de judeus praticantes e chamava-se Chaya Pinkhasovna Lispector. Os pais, fugidos às perseguições antisemitas, depois de longa viagem, instalaram-se, em 1921, na cidade de Maceió, hoje capital do estado de Alagoas, no Brasil. A família mudou de nome. Chaya passou a chamar-se Clarice. Ao longo da vida, Clarice reivindicou a qualidade de brasileira e amou apaixonadamente o Brasil. Mas quem foi ela, realmente?

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 07/11/10

1 comentário:

  1. Acabei de comprar essa biografia.Conheço pouco da obra desta escritora, mas gosto do que conheço.Fiquei curiosa de ler o livro que vi por acaso na livraria.
    Isabel

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