óleo de Amedeo Modigliani (1884-1920)E lá foram direitos à Viúva. Não tinham de andar muito e o caminho, que acompanhava o Rio della Misericordia, deserto e silencioso, fazia-se bem. Lorenza, que os seguira, ultrapassou-os, pendurada do braço de um rapaz, a rir e a falar sozinha.
“Saímos e ela veio atrás de nós e agora vamos nós atrás dela. Não tem emenda!”, resmungou o Memmo
Andrea acelerou o passo, mas parou e olhou para trás: queria protegê-la e que ela sentisse o seu olhar e não se estatelasse na rua ou abandonasse o corpo em mãos alheias; era ciúme porque Lorenza, enquanto dava gargalhadas e falava alto, a saber que a tinham visto e a ouviam, puxava o companheiro, fugia com ele.
— Vai bêbeda... — murmurou Alberto.
— Achas? No estado em que está, ainda arranja um sarilho!
— Não te aflijas, ela vai para onde nós vamos, para a Viúva.
Era verdade: Lorenza, que os ultrapassara, ia direita à Viúva. Queria chegar antes de Andrea, atraí-lo, imaginar — ela que ia à Viúva por causa dele — que Andrea dependia da sua vontade e que se fosse para outro sítio ele iria também. Não aceitava que Andrea deixasse o Paradiso Perduto, se libertasse ou alguma vez prescindisse dela. Agora, ia à frente a provocá-lo, a evitar ficar sozinha com as próprias dúvidas. Estava cansada e desesperada e apostava naquilo de que duvidava: no amor por Andrea. Era o que tinha. Coerente —onde ia buscar a coerência?—, teimava, que as dúvidas não a largavam. Arrastava o companheiro de ventura, queria chegar e que Andrea a visse. Não o traíra, estava à sua espera, no sítio que ele escolhera. Se fora obrigado por ela, melhor. E não abandonava o corpo em mãos alheias, agitava os braços, encostava e desencostava o corpo, não o oferecia.
“Quando se entregará?”, perguntou Andrea, que não compreendia que ela se lhe dava, no estardalhaço, no exagero, a caminho da Viúva. “O que quer é ouvir-se e mostrar-se.”
Queria que a ouvissem? É possível. Mas não tinha a certeza de que a ouviam e ia aos pulos e a gritar. A própria voz lhe fazia companhia, levava a voz ao lado para não estar sozinha e ninguém podia roubar-lha. Exagerava, na esperança de que reparassem na aflição e na boa vontade do seu teatro. Em frente da Misericordia Nuova, apontou:
— Que lindo! Que bem que se vivia num palácio destes!
O que ia com ela empurrou-a para a ponte que liga as Fondamenta a S. Felice e ela deixou-se empurrar. Dissera aquilo por dizer, como dizia tantas coisas mas sacudiu o companheiro e encostou-se ao parapeito:
— Olhem a Laguna!
Era inútil porque não se via, escondida ao fundo do canal com os que os prédios à volta e detritos a boiarem na água escura. O outro impacientou-se, a puxar por ela.
-Toca para a Viúva!
Lorenza aceitou. Se iam, por que não ia também? Não queria ficar sozinha. E ultrapassou-os outra vez, a abrir caminho com o corpo.
— Gostas assim tanto dela? — perguntou Alberto.
— Gosto.
A taberna ficava ao fim da rua. Viram a porta de vidros cor-de-rosa, iluminada. Entraram e foram engolidos pelo mar de gente. A proprietária, uma mulher pequenina e desembaraçada, que ficara, há muito, sem marido, dava ordens, atrás do balcão de zinco.
— Aqui está quentinho! — exclamou Alberto, a esfregar as mãos e a bater os pés. — Que vamos beber?
Mas Lorenza já fugira e Andrea tinha ido atrás dela.
“Ninguém os agarra...”, resignou-se Alberto. “Não têm vergonha”
Andrea procurava-a e Lorenza ignorava-o e entregava-se a quem ia aparecendo, olhos brilhantes a desafiarem. Tão brilhantes, tão excessivos e frágeis na provocação, que o Memmo pensou:
“Ainda bem! Amam-se e não se defendem nem escondem nada.”
E não escondiam nada. Alguma vez esconderam? Se calhar nunca ou só a eles próprios, e até ao fim seria sempre assim. Alberto via Lorenza debruçada sobre uma das mesas, a fazer gestos e Andrea, à espera. Impaciente ou deslumbrado? Dependia do espectáculo, dos seus gestos, do nervosismo, que, afinal, sublinhavam a beleza, o corpo inclinado, os cabelos soltos, as mãos a tocarem nos outros e a tremerem, sôfregas, inseguras.
“Ela é realmente muito bonita e ele gosta muito dela!”, reconheceu Alberto.
Uma vez que tinham de se amar e apesar de não saberem amar-se, que assim fosse. Viviam, afinal, livres. Entregavam-se, sem receberem nada, porque recebiam muito pouco: apenas a emoção, ao confrontarem-se. Exigiam sempre, é certo, qualquer coisa; mas a exaltação de continuarem a procurar-se e a imporem a presença um ao outro, a obrigarem o outro a não se esquecer, compensava a falta do resto. Não tinham consciência disso: era um movimento que lhes nascia nas entranhas e que deixavam como era porque lhes dava felicidade. Aceitavam-no com imprudência egoísta: arriscavam-se mas iam em busca de alegria. Alberto Memmo não tirava os olhos deles: expunham-se, sem nenhuma garantia. Não tinham defesa, nem um nem outro. Andrea, atrás de Lorenza, que gesticulava, era tão frágil como ela. Estava atrás dela porque precisava dela e os gestos e os disparates fascinavam-no: nunca seria capaz de tal desafio. À sua frente, Lorenza expunha-se, permitia aos outros o que nunca julgara que permitisse. E sabia que a via (talvez, por isso, se comportasse daquela maneira). E tinha vontade de a acompanhar naquela comédia, não queria deixá-la sozinha, seu cúmplice mesmo na vergonha por onde parecia querer andar.
“Estes maluquinhos”, suspirou Alberto. “Não têm juízo. Andam à procura do absoluto e qualquer lhes serve.”
Mas quando Francesco Orio, que girava por ali, o convidou a beber, sentiu-se satisfeito. Não só com a delicadeza do amigo: achava que era bonito ver os dois juntos — Lorenza e Andrea — e sem mais nada: Andrea atrás de Lorenza e Lorenza em cima dos outros. Ele a consentir e ela à espera que não consentisse. Até quando iria durar? Até quando resistiria aquele amor?
— Um tinto? — perguntou Francesco.
-Ou um branco. — respondeu Alberto, .
Era muito bonito ver duas pessoas apaixonadas. Sorriu para Francesco e acrescentou:
— Obrigado, nunca te esqueces dos amigos!
“Saímos e ela veio atrás de nós e agora vamos nós atrás dela. Não tem emenda!”, resmungou o Memmo
Andrea acelerou o passo, mas parou e olhou para trás: queria protegê-la e que ela sentisse o seu olhar e não se estatelasse na rua ou abandonasse o corpo em mãos alheias; era ciúme porque Lorenza, enquanto dava gargalhadas e falava alto, a saber que a tinham visto e a ouviam, puxava o companheiro, fugia com ele.
— Vai bêbeda... — murmurou Alberto.
— Achas? No estado em que está, ainda arranja um sarilho!
— Não te aflijas, ela vai para onde nós vamos, para a Viúva.
Era verdade: Lorenza, que os ultrapassara, ia direita à Viúva. Queria chegar antes de Andrea, atraí-lo, imaginar — ela que ia à Viúva por causa dele — que Andrea dependia da sua vontade e que se fosse para outro sítio ele iria também. Não aceitava que Andrea deixasse o Paradiso Perduto, se libertasse ou alguma vez prescindisse dela. Agora, ia à frente a provocá-lo, a evitar ficar sozinha com as próprias dúvidas. Estava cansada e desesperada e apostava naquilo de que duvidava: no amor por Andrea. Era o que tinha. Coerente —onde ia buscar a coerência?—, teimava, que as dúvidas não a largavam. Arrastava o companheiro de ventura, queria chegar e que Andrea a visse. Não o traíra, estava à sua espera, no sítio que ele escolhera. Se fora obrigado por ela, melhor. E não abandonava o corpo em mãos alheias, agitava os braços, encostava e desencostava o corpo, não o oferecia.
“Quando se entregará?”, perguntou Andrea, que não compreendia que ela se lhe dava, no estardalhaço, no exagero, a caminho da Viúva. “O que quer é ouvir-se e mostrar-se.”
Queria que a ouvissem? É possível. Mas não tinha a certeza de que a ouviam e ia aos pulos e a gritar. A própria voz lhe fazia companhia, levava a voz ao lado para não estar sozinha e ninguém podia roubar-lha. Exagerava, na esperança de que reparassem na aflição e na boa vontade do seu teatro. Em frente da Misericordia Nuova, apontou:
— Que lindo! Que bem que se vivia num palácio destes!
O que ia com ela empurrou-a para a ponte que liga as Fondamenta a S. Felice e ela deixou-se empurrar. Dissera aquilo por dizer, como dizia tantas coisas mas sacudiu o companheiro e encostou-se ao parapeito:
— Olhem a Laguna!
Era inútil porque não se via, escondida ao fundo do canal com os que os prédios à volta e detritos a boiarem na água escura. O outro impacientou-se, a puxar por ela.
-Toca para a Viúva!
Lorenza aceitou. Se iam, por que não ia também? Não queria ficar sozinha. E ultrapassou-os outra vez, a abrir caminho com o corpo.
— Gostas assim tanto dela? — perguntou Alberto.
— Gosto.
A taberna ficava ao fim da rua. Viram a porta de vidros cor-de-rosa, iluminada. Entraram e foram engolidos pelo mar de gente. A proprietária, uma mulher pequenina e desembaraçada, que ficara, há muito, sem marido, dava ordens, atrás do balcão de zinco.
— Aqui está quentinho! — exclamou Alberto, a esfregar as mãos e a bater os pés. — Que vamos beber?
Mas Lorenza já fugira e Andrea tinha ido atrás dela.
“Ninguém os agarra...”, resignou-se Alberto. “Não têm vergonha”
Andrea procurava-a e Lorenza ignorava-o e entregava-se a quem ia aparecendo, olhos brilhantes a desafiarem. Tão brilhantes, tão excessivos e frágeis na provocação, que o Memmo pensou:
“Ainda bem! Amam-se e não se defendem nem escondem nada.”
E não escondiam nada. Alguma vez esconderam? Se calhar nunca ou só a eles próprios, e até ao fim seria sempre assim. Alberto via Lorenza debruçada sobre uma das mesas, a fazer gestos e Andrea, à espera. Impaciente ou deslumbrado? Dependia do espectáculo, dos seus gestos, do nervosismo, que, afinal, sublinhavam a beleza, o corpo inclinado, os cabelos soltos, as mãos a tocarem nos outros e a tremerem, sôfregas, inseguras.
“Ela é realmente muito bonita e ele gosta muito dela!”, reconheceu Alberto.
Uma vez que tinham de se amar e apesar de não saberem amar-se, que assim fosse. Viviam, afinal, livres. Entregavam-se, sem receberem nada, porque recebiam muito pouco: apenas a emoção, ao confrontarem-se. Exigiam sempre, é certo, qualquer coisa; mas a exaltação de continuarem a procurar-se e a imporem a presença um ao outro, a obrigarem o outro a não se esquecer, compensava a falta do resto. Não tinham consciência disso: era um movimento que lhes nascia nas entranhas e que deixavam como era porque lhes dava felicidade. Aceitavam-no com imprudência egoísta: arriscavam-se mas iam em busca de alegria. Alberto Memmo não tirava os olhos deles: expunham-se, sem nenhuma garantia. Não tinham defesa, nem um nem outro. Andrea, atrás de Lorenza, que gesticulava, era tão frágil como ela. Estava atrás dela porque precisava dela e os gestos e os disparates fascinavam-no: nunca seria capaz de tal desafio. À sua frente, Lorenza expunha-se, permitia aos outros o que nunca julgara que permitisse. E sabia que a via (talvez, por isso, se comportasse daquela maneira). E tinha vontade de a acompanhar naquela comédia, não queria deixá-la sozinha, seu cúmplice mesmo na vergonha por onde parecia querer andar.
“Estes maluquinhos”, suspirou Alberto. “Não têm juízo. Andam à procura do absoluto e qualquer lhes serve.”
Mas quando Francesco Orio, que girava por ali, o convidou a beber, sentiu-se satisfeito. Não só com a delicadeza do amigo: achava que era bonito ver os dois juntos — Lorenza e Andrea — e sem mais nada: Andrea atrás de Lorenza e Lorenza em cima dos outros. Ele a consentir e ela à espera que não consentisse. Até quando iria durar? Até quando resistiria aquele amor?
— Um tinto? — perguntou Francesco.
-Ou um branco. — respondeu Alberto, .
Era muito bonito ver duas pessoas apaixonadas. Sorriu para Francesco e acrescentou:
— Obrigado, nunca te esqueces dos amigos!
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