domingo, 28 de março de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 3

óleo de Giorgio de Chirico (188-1978)



Andrea parecia um bicho acossado.
— O que é que ela queria?
— Talvez quisesse que eu fosse ter com ela e que só pensasse nela. Não sei. Era a sua maneira. Se te contasse! Se te contasse tudo o que aconteceu!

Bernardo suspirou e ajudou-o:
— Deixa lá! Olha, come esta salsicha! Queres que abra outra garrafa?
-Abre, faz o que achares melhor. Quero é que me oiças.

Bernardo abanou a cabeça, enquanto abria a garrafa.
-Ninguém ouve!

Serviu o vinho e ficaram calados, a olhar o lume, que pegara bem e lambia as paredes da lareira. Mas agora era Andrea quem não desistia:

- Quero contar-te a minha história com Lorenza.
— Não é preciso.
-Estás enganado! Preciso de contar e aproveito esta noite. Se cá vim, foi porque és meu amigo e posso dizer-te o que me apetecer. A verdade.
-A verdade?
Andrea sorriu:
- A que eu souber. Se te contasse!
-Então, conta, desabafa!
— Uma vez...
— Espera aí! Vou pôr música.

“Vai pôr música? O que lhe vou contar pede música? Está a brincar comigo ou é dos copos? É a ironia, que também ele é irónico e, às vezes, caustico, por trás da bondade? Ou quer ajudar-me? Querido Bernardo!”

— Quando a conheci, era uma rapariga de dezoito anos. Ia para a universidade, cheia de medos, insegura, como foi sempre. Nem mais, nem menos. Com a inquietação que só vencia quando a transformava em afirmação. Não acreditava mas servia-lhe para se libertar. Era o que tinha e era teimosa. Viveu sempre assustada e desastrada, pronta a respeitar o caminho que escolhia. Fazia-o inconscientemente? O egoísmo, o instinto de sobrevivência a impor-se? Talvez. O caminho que escolhia nem sempre era aquele que queria. Encostava-se à sobrevivência. Ao mesmo tempo, arriscava: punha a cabeça de fora. Arriscava-se a fugir. Compreendi isso quando a vi no vaporetto.

— Compreendeste logo? És um génio! Compreendeste logo a tua namorada!
— Nunca foi a minha namorada. Julguei que a entendia e apaixonei-me por ela. Tínhamos muitas coisas em comum. Irmã, amiga? Sou dezasseis anos mais velho, podia ser minha filha. Exigente, capaz de se defender. Porque nós queremos sempre que os filhos sejam capazes de se defenderem. Apanhei-a no barco, perguntei-lhe o nome, o número de telefone. Depois, comecei a tentar metê-la dentro, a telefonar-lhe, a procurá-la. Nunca mais lhe dei descanso.

Bernardo sorriu:
— Não exageres! Gostavas da rapariga e foste atrás dela. Não é pecado.
— Eu sei. O que te estou a contar é a história do meu amor por Lorenza.
— Já disseste. E é a história do amor de Lorenza por ti.
—Não havia ne­nhuma razão para ela não gostar de mim. Eu gostava tanto dela! Nem imaginas. Estava em Treviso e pensava nela, chegava a Veneza e ficava à espera de a ver! E lá vinha, com a gabardina branca ou, no Inverno, o casaco de foca, no Verão, a blusa de seda. Os seios pequenos apertados. Os cabelos loiros. Desejava-a! O corpo dela à minha frente e eu sem saber se queria que a abraçasse. Não a inventei. A sua insegurança, existiu sempre. Aparecia, exuberante, toucada de azul, o de Veneza, as pernas desengonçadas, à espera que a protegesse. Eu não sabia. Ela vinha ter comigo e eu desconfiava. Ia dar-me e o que é que ela me daria, em troca? Hoje, penso que ela queria que eu a protegesse. Queria descansar... Ela também. Não se revoltava. Às vezes, revoltava-se a ver se eu a ajudava. Tu sabes como é.
— Não.
— Sabes, com certeza! Provocava-me, à espera que me abrisse. E, quando me abria, fechava-se. O tempo que durou! Eu a ver se ela gostava de mim e ela a esconder-se. E, depois, a pedir-me que a procurasse.
— E tu continuavas a procurá-la?
-Há limites para tudo.

Bernardo atiçou o lume e fez uma festa ao cão.
— Se calhar, ela gostava de ti e tinha medo que começasses a dizer coisas sem pés nem cabeça e já não pudesse valer-te.
— Em quê?
— Ora, nisso mesmo, no disparate, no excesso do teu amor.

Andrea reparou nas bochechas encarnadas de Bernardo, o copo na mão, o corpo aconchegado, os olhos bons, que o culpavam. “Está a trair-me. Afinal é mais amigo da Lorenza do que de mim.”

— Andrea, ouve, eu vi, não era só ela, tu também exageravas!
— Em quê?
— Querias mais do que era possível!
-Eu?! E o que é que julgas que ela queria? A nossa relação foi sempre um desastre!
Não valia a pena parar. Mas custava-lhe.
-Eu sei, Bernardo. Sei que dizia tantas coisas que ela não dizia e não nos entendíamos. É verdade que precisava dela, que a procurava, e talvez nisso exagerasse. Às vezes, deixava-a em paz. Outras não, apertava com ela. Mas ela parecia que também queria. E eu julgava que fazia uma boa acção. O resultado era magoarmo-nos e ficarmos ainda mais desconfiados.
-Porquê?
-Porque nos arriscávamos pouco. Corríamos, atrás um do outro, só isso. É provável que me tenha procurado quando eu não queria nada dela e vice-versa. Não é um disparate?!
-Talvez...
Bernardo pareceu-lhe distante ou a desfrutar a desgraça deles e Adrea gritou:
— O nosso amor foi o que foi! O que querias mais?!
Bernardo não queria nada, queria ouvi-lo.

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