terça-feira, 30 de março de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 5

'Universo', trabalho de Antoine Pevsner (1886-1962)



Encheu-lhe o cálice de aguardente. Custava-lhe, mas não podia parar. Alguma coisa acabaria por sair dali. Não queria contrariar a vontade de se confiar do outro e pensava que a sua não era só inútil e egoísta.

— Esteve ao pé de mim quando a chamei! Não é bem verdade... Às vezes, foi ela que veio. Tão poucas vezes, que comecei a descrer!
— Quer dizer, tu não respondias aos telefonemas...
-Estás enganado. Respondi, sempre, aos telefonemas. Ela é que vinha sem entusiasmo. Era um peso que levava comigo, uma aflição. Por que me telefonava e, depois, aparecia com cara de enjoo? Se me chamava, era porque precisava. E eu também precisava dela. Em vez de se mostrar contra­riada, por que não me dizia: “Gosto muito de ti”? É verdade que dizia: “Obrigada por teres vindo” e encostava o casaco ao meu.
E, num movimento de revolta:
-Eram só casacos!

— Que querias mais?
— O resto! Que se me desse toda!
— Achas possível?
— Houve um momento em que pensei que sim: quando a vi no barco.
— E depois?
— Depois? Foi o que estás farto de saber! Não apertes! Que tens a que ver com isto?!
-Nada. Mas ouve, Andrea, deixa-me dizer-te: as vossas almas mentiram ou ligaram-se para sempre.

Andrea não o ouviu.

—Depois, é verdade, escreveu-me, mas a despejar as frustrações!
— Só isso?
-Praticamente. As cartas dela eram-me indiferentes. Gostava de as receber, mas não queria lê-las. Já tinha a vida organizada em Milão, esquecera Veneza. Equilibrava-me!
-Esqueceste?...
— Não perguntes se eu não sabia que era um falso equilíbrio!
— Eu não pergunto nada...
— Era falso, mas era o meu! O dela era mais verdadeiro?
— Era? –insistiu Bernardo.

Irritava-o a angústia do amigo, não estava ali só para o ouvir e dizer-lhe que sim, apesar de só estar ali por isso e por o estimar:

— Era tão falso como o teu! Alguma vez lhe pegaste ao colo?
— Muitas vezes! E sei lá se valeu a pena!
— Porquê?
—Puxava-a e ela consentia mas, depois, sentada nas minhas pernas, eram só os ossos e começava a mexer-se e já não valia a pena tê-la ao colo.
-Pobre Lorenza!
-Talvez. Mas que sabes tu de Lorenza?
-O que me disseste.
-Disse alguma coisa?

E, a sentir-se devassado, quis levar ainda mais fundo a confissão, a ver se conseguia libertar-se do que lhe ia dentro e do peso do amigo.

— Então, vais ver! Se quiseres ouvir.
— Quero.
— Falou-me de tudo, dos pais, das irmãs. Da grega.
— Da grega?
— Não soubeste da grega?
— Soube que ela tinha uma amiga grega de quem não gostavas.
— Metia-me nojo! A Lorenza escreveu-me uma carta em que não falava da grega mas era só da grega que falava. Dizia: “Querido Andrea: estou cansada. Nem o cigarro me satisfaz. O vento, que bate na minha janela, desequilibra, rasga a tranquilidade do meu quarto. Estou cansada, farta do meu narcisismo e dos problemas que me cria! Talvez todos os narcisistas tenham estas tendências.” E acrescentava: “Não me julgues, não me condenes. Eu não julgo, nem condeno, amo, como toda a gente. É pecado querer a beleza? Merda! Eu não acredito em pecados, só acredito em mim!”

Bernardo interrompeu-o:
— Lembras-te tão bem?
— Lembro-me como posso Que queres? Se calhar invento, mas lembro-me!
— E o que é que isso tem a ver com a grega?
—Tem a ver porque a Lorenza também me escreveu: “A menina da franja e das sandálias brancas com soquetes! Onde foi parar! É triste ser-se objecto de amor e não conseguir desejar nem amar quem nos merece e perdermo-nos nas nossas fraquezas.”

Parou, como se lhe faltasse o ar, bebeu mais um gole e continuou, amargo:

-Esse era o tempo em que andava com a grega e a levou a casa.
— E, só por isso, achas que ela não te amava, não te dese­java?
-Não, mas gostava de fitas! Uma vez, escreveu: “Gostava de me prostituir, durante uns tempos. É uma experiência necessária. Já que me prostituo tanto na cabeça, é a altura do corpo se entregar. Chama-lhe masoquismo, se quiseres.” Assim, friamente.

Calou-se um instante, a olhar para dentro de si e, depois, murmurou:
-É um dos mistérios das mulheres, a frieza de que são capazes... Defesa? Pudor? Indiferença? Troçam de nós? Nós também somos assim, quando amamos? Nunca entendi!

Bernardo reparou que o fixava, lúcido e desvairado, e lhe estendia o cálice vazio. Assustou-se:
-Não interessa! Somos todos iguais! Uns desajeitados!
Mas o outro não desistiu:
-Só as mariquinhas e as falsas que escrevem cartas líricas!
-Não é verdade. Mas deixa lá... –comentou Bernardo.
E não resistiu:
-Achas que ela se prostituiu com a grega?
— Pelo menos faziam coisas de que se ela arrependia.
-És ciumento e possessivo. O mais certo é que não passassem de duas boas amigas.
-Há muita coisa que não sabes. Foi tudo uma grande confusão! A grega, por exemplo. Essa cabrinha, um dia, apareceu-me em S. Marco, insistiu para que nos sentássemos a tomar café. No Florian, claro! E cruza as pernas, mostra as coxas, desfaz-se em sorrisos, a armar em virgem!
-Em virgem?! –riu Bernardo- És sempre o mesmo! E tu?
-Também virgem, menino de coro... Às ordens dela... E ela toca de falar em arte, na minha sensibilidade, no tempo que corre, nas injustiças. Na solidão, imagina! E que desenhava, que pintava. Eu queria ir ver? “O meu quarto é mesmo ali, por detrás do relógio...”
-E foste?
-Convite de puta! Não, não respondi. Atirei-me às teorias, cobri-lhe a gordura com a teoria da arte! Cansei-a, até que se foi embora, vermelha como um tomate!
Bernardo baixou os olhos.
-Vermelha como um tomate! –repetiu Andrea.
-O que é que ela queria?
-Cornear a amiga! Não achas?!
-Talvez não, talvez quisesse saber por que é que ela te amava.
-Onde?! Na cama, onde nunca estivemos? Ó Bernardo, francamente!

Bernardo ia a dizer: “Esse foi o teu erro ou a tua covardia, recusares-te” mas Andrea antecipou-se:
-Eu não me recusei, ela é que nunca quis! E aparece a grega, a tentar convencer-me! Qualquer eu coisa herdei de meu pai. Não só o romantismo e a paixão pelo Puccini. Meu pai era um homem sempre alerta, com os pés bem assentes na terra! Cheirou-me a esturro. O que ela queria era sujar-me e, depois, ir contar à Lorenza.
-Sim, é possível. E também é possível que quisesse partilhar do vosso amor.

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