sábado, 27 de março de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 2

'Vénus', pormenor de um óleo de Sandro Botticelli



A expressão de Bernardo, os olhos vivos e a entrega, sentado na poltrona gasta, o cão aos pés e o prato nos joelhos, a simplicidade, conquistaram-no. Ia confiar-lhe muitas coisas, as que, durante anos, não contara a ninguém. “Se não lhe dissesse a ele, a quem diria?”

Mas Bernardo antecipou-se:
— Sabes que a Lorenza se casou?
— Não. — mentiu.
— Casou-se com um engenheiro de Pordenone. E aconteceram outras coisas: o Alberto Memmo anda com uma pintora de Belluno e a Patrizia dal Col fez uma exposição de bonecas em Milão.
— Ah, sim?
— Pois foi. — disse Bernardo e encheu o copo de Andrea. — Nunca mais os viste?

“Filho da mãe! O que tu queres bem sei: que te conte a minha vida”, pensou Andrea.

— Vi essa gente. E, se não os vi mais vezes, foi porque me incomodavam. Voltei a Veneza e a encontrar Lorenza e os outros. Era isso que me incomodava.
— Águas passadas não movem moinhos. O que importa é que estejas contente com o teu trabalho.

Encolheu os ombros. Não acreditava no que ele dizia. Baixou os olhos, triste.
— Ah! Bernardo!
— O que é?
— O que te vou contar já tu sabes. É a minha história com Lorenza.
— A tua história com Lorenza?

Agora, Andrea olhava o amigo na cara, decidido a falar, a expor-se e, ao mesmo tempo, queria que o outro soubesse que não se deixava enganar.

— Qual história é que querias? Não armes em parvo! Vou contar-te uma história e já não é mau. Tens alguma para me contar?
— Não... –sorriu Bernardo- Conta lá.
— Por onde queres que eu comece?
— Conta...
— Ela era uma criança. Teria o quê? Dezoito anos? Encontrei-a no cais da Accademia. Nunca a vira antes. Apareceu-me, com a gabardina branca, os cabelos loiros e as faces rosadas. Que esperavas que eu fizesse? Disse-lhe “Boa noite” e ela respondeu “Boa noite.” Perguntei-lhe “Para onde é que vai?” e ela respondeu “Para o Lido.” Não me disse se queria que eu fosse com ela mas eu fui e, quando lá chegámos, disse-me: “Se quiser, telefone-me. Até qualquer dia.” E eu deixei-a ir.
— Ela deu-te o número do telefone?
— Eu é que lho pedi. E dei-lhe o meu. No regresso pensei que havia de me procurar ou ia eu à procura dela. Era o destino.
— Ai sim? — perguntou Bernardo, recostado no sofá e a saborear o vinho.
— Pois claro! Nem imaginas que destino! Nunca mais nos separámos. E fizemos tantas asneiras! Mais, valia que nunca nos tivéssemos conhecido! Andámos sempre um atrás do outro e mais valia que nunca nos tivéssemos visto. Julgas que foi fácil?
— Nunca julguei...

E era verdade, nunca pensara que tivesse sido fácil. Cruzara-os em Veneza, ouvira falar deles e a impressão que ficara fora a de um grande sarilho: arranhavam-se, não se entendiam e não se largavam. Um combate absurdo, caricato. E, no entanto... “São jovens ainda! Há uma pureza esquisita neste dois e uma tolice incurável.” Saboreava o vinho, enterrado na poltrona, e o que queria era que Andrea se sentisse bem, oferecer-lhe sossego, aconchegá-lo. Parecia um cachorro batido e doía vê-lo assim.

— Bebe, é melhor. Isso são coisas que deram o que tinham a dar.
— Nunca soube gostar dela. Gostei dela e não soube amá-la. E, se calhar, ela nunca soube gostar de mim.
-Acontece.
-A ti, aconteceu-te alguma vez?

Andrea levantara a voz, a querer lembrar-lhe que a sua vida era calma, retirado na casa de Bassano, com o cão e os livros, os quadros e, lá em cima, no hospital, os doentes, que precisavam dele e ajudava, Laura Buriani, a colega que era sua amante.

Bernardo pareceu compreender e justificar-se:
— Acontece a todos.
—Às vezes, dói!
— É natural.
— É natural?! Só é natural para quem anda metido nelas!
— Sabes lá tu no que eu ando metido!
— Sei.
O outro evitou responder.
— E depois? O que aconteceu?
— Depois, quando a conheci melhor, armou-se em boa, fingiu que não me conhecia.
— Armou-se em boa?!
— Armou-se em boa, pôs-se a fingir que não valia a pena, que a gente se tinha conhecido por acaso. Pôs-se assim. E eu já gostava dela.
— E ela não te queria?
— Não sei. É possível. Talvez já tivesse começado a fugir. Sei lá! Falou comigo muitas vezes, veio ter comigo. Mas outras vezes não veio. Escondia-se, exaltava-se, ofendia-me. Sim! Ofendia-me!
— E nunca foi à casa de Treviso?
— Só uma vez.
— Porquê?
— Era longe.
— De Veneza a Treviso?!
-Dizia ela. Eu estava, sempre, à espera. Quieto. À espera que chegasse. Mas sem convicção.
— Porque era muito longe?
Andrea perguntou, secamente:
-Estás a gozar?
Bernardo emendou:
-Não! Mas tens de concordar que ela podia lá ter ido.
-Poder, podia, mas não foi. Ou porque era longe, ou porque não queria, ou porque tinha medo. Ela era assim. Perdoei-lhe.
-Perdoaste de mais.
-Talvez. Compreendi que era difícil meter-se a caminho, apresentar-se, sem defesas e eu abrir-lhe a porta e tomar conta dela. Não é o seu estilo.
—O que tu inventas! Preferias que te aparecesse com defesas e não a pudesses amar?
— Não, Bernardo. Eu não sei se o meu amor era verdadeiro, se me bastaria a sua humilhação para me sentir contente, seguro. Era por isso que a esperava na casa de Treviso e noutros sítios, nos cafés, nos largos, onde quer que fosse? Não sei. Custa tanto ir ao encontro de uma pessoa! Ficava longe de Veneza, a casa de Treviso... Queria que me procurasse mas não me importava se não viesse. Se a domasse e ela precisasse de mim, teria de a aturar.
— Mas não gostavas que te entrasse pela casa dentro e te dissesse que, sem ti, não era capaz de viver?
— Gostava. Mas isso nunca aconteceu.
— Por culpa de quem?
— Não sei!

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