quarta-feira, 31 de março de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 6

'A noiva do vento', óleo de Oskar Kokoschka (1886-1980)


Andrea levantou-se num repente, a tremer, os olhos marejados:
-Bernardo, eu fui ao quarto dela...

O amigo sorriu, afinal não o surpreendia, e respondeu, muito calmo:
-É grave?

Andrea libertava-se do peso ou da culpa que o roíam:

-Afinal, era uma mulher doce. Generosa. Boa? Talvez, sei lá! Deixei-me levar e procurei corresponder. A partir de dada altura, não havia mais ninguém. Esqueci o resto. Tinha a sua nudez e a delicadeza, o cuidado em fazer-me feliz. Quando acabámos e me levantei, perguntou: “Vais já embora?” Doce, sem a frieza e a hipocrisia que imaginara. Cobrira-se com os lençóis e parecia uma criança, ainda mais pequena, frágil, insignificante. Só os olhos brilhavam, resignados. Há nos olhos das orientais uma candura e uma inteligência que desorientam! A dada altura, eu senti-me inferior, uma criança. Eu, uma criança, ao pé daquela jovem.

Virou-se para Bernardo e exclamou, como quem não a entende mas tem de aceitar a evidência:
-Ela sabia muito mais do que eu!

Bernardo abanou a cabeça, agora a olhar para dentro, momentaneamente alheio, melancólico e divertido:
- Não só as orientais são assim...

A voz de Andrea embargara-se, e aos arranques, a querer dominar-se e a mortificar-se, acrescentou:

-Aproveitei-me e escapei! Vesti-me a correr. Ia sair, sem me despedir. Voltei atrás, estendi-lhe a mão. Não conseguia dizer nada. Sorriu: “Esquece. Não tem importância.” Partiu-se-me a alma! Como pudera fazer aquilo?! Ela insistiu: “Adeus. Vai...”

Fez uma pausa, cansado, e concluiu, o rosto ardido das lágrimas:
-Aí tens o que aconteceu!

Bernardo levantou-se e abraçou-o. Não o queria a chorar.

-E depois? Que importa? Era Lorenza quem tu amavas!

Andrea fitou-o, ansioso, agarrado à palavra que o absolvia:
-Tens a certeza?
-A certeza não posso ter. Mas também tu não podes ter a certeza do que dizes. Que importa tudo isso? É tarde. A noite vai alta, está frio e bebemos muito. Estamos muito cansados.

Andrea deixou-se cair no sofá e sorriu:
-Sim, é verdade, bebemos demais. Mas tu compreendeste. Amei Lorenza, sempre!
-Alguma coisa viste nela. Mas o quê, meu amigo? Não podias estender-lhe a mão?
—Vi-a aflita, insatisfeita, a escrever-me: “Uma sensação de vazio completo, de indiferença, de renúncia. Gostava de te dizer que ia ter contigo. Sou tua amiga, à minha maneira. Como eu gostava de ir ter contigo! Mas não vou, já não irei. Eu nunca vou, em nada! Falta-me coragem. Sobrevivo.”
— Escreveu-te isso?
— Escreveu-me essas coisas, mesmo as que inventei agora!
— Eu nunca disse que inventavas.
— Nem podias dizer! Ela sofria, com a grega, ou fosse lá com o que fosse, e eu já não podia fazer nada!
— Porquê?
— Porque passara o tempo.
— E não sofrias?
— Sofria, mas preferia sofrer sozinho.
—Curaste-te?

Andrea fitou-o, irónico:
-Achas?
-Não sei.
-Não sabes? Eu explico: não me curei, cauterizei a ferida. Foi cada um para seu lado, ela com os dramas dela e eu a trabalhar em Milão, a ver o Roberto crescer e a procurar ser honesto. Não julgues que me tornei monge! Aqueci a merda deste corpo nas que foram aparecendo.

Gesticulava outra vez, excitado, emocionado, levantava-se e voltava a sentar-se. Ria. Gritava.
-E apareciam muitas! Aparecem muitas! Muitas!!! Não posso queixar-me. Dá para encher o tempo... E dá alguma felicidade.

orriu para o cálice.
-Felicidade?... Chama-lhe assim. Um corpo de mulher é, sempre, um corpo de mulher! Uma luz, não é? Um holofote!... Um bem de Deus...

Não parava de beber, ele próprio se servia e tomara conta da garrafa. Bernardo seguia-o, fascinado. E, a medo, perguntou:
-Nunca tiveram um momento de felicidade?
-Quem?
-Tu... Tu e a Lorenza?

Andrea imobilizou-se e pareceu acalmar-se.
-Eu e a Lorenza? Quem? Foi há tanto tempo...


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