'Vampiro', óleo de Edvard MunchToda a gente os via: Lorenza esfuziante e Andrea à espera que ela se acalmasse e a imitá-la. Via-os Alberto e via-os Caterina, também por aqueles sítios. Entrara na Viúva e deparara com eles de sala em sala, de mesa em mesa, a representarem.
“Parecem uns palhaços! Não devem ser felizes.”
Antes, quando andava com ele, julgara que era Andrea que dependia de Lorenza e essa sujeição revoltava-a: o homem de quem gostava nas mãos de uma qualquer, o homem com quem dormia e a quem se dera, degradava-se, consentindo. Agora percebia que era um desastre. Ele não se degradava, precisava daquilo. Acontecera que, ao abraçá-lo, sentira que lhe fugia e, por mais que o apertasse e beijasse, o seu corpo não lhe pertencia, chegava ao prazer e ele também e eram duas coisas distintas, não se misturavam. “Por onde anda? Com aquela idiota? Coitadinho! Não merece!” E, porque gostava dele, vinha-lhe vontade de continuar a abraçá-lo e a amá-lo: “É frágil, é ela que abusa”. Mas reparava que Lorenza dependia de Andrea: sem Andrea a olhar para ela, o teatro de Lorenza, a comédia, os movimentos desgarrados perdiam a razão de ser e desarticulava-se, ficava encostada aos cenários, com uma expressão parada e cabelos de palha.
— Não achas? — perguntou a Alberto.
— O quê? — disse o Memmo, sobressaltado, quase a entornar o copo.
— Não achas que parece um mordomo atrás de uma falida?...
Alberto espreitou-a pelo rabo do olho:
— Quem?
— Aqueles dois. Vieste com o Andrea?
— Não, já cá estava —mentiu Alberto.
-Está sempre toda a gente aqui...
-Tens razão, Veneza é um mundo que nos atira para cima uns dos outros.
E, já seguro de si, perguntou:
— Tens ciúmes?
— Eu não.
Era-lhe indiferente o que pensava Alberto. Não a afligiam os ciúmes, tinha pena deles, quando os outros se riam de Lorenza, que falava alto e de Andrea, que a acompanhava.
—Os amantes são assim. —disse Alberto, com voz arrastada, não por causa do vinho, mas porque lhe custava— Agridem-se e não sabem estar juntos.
— Isso é filosofia! — respondeu Caterina, a roubar-lhe um gole do copo — Quem ama, não larga! Agarra até não poder mais, aperta, até que seja só o calor do outro.
—Filosofia tua...
-Será.
Talvez Alberto tivesse razão: juntava palavras e esquecia-se de que mandara embora Andrea, quando se cansara. Mas viu Lorenza que se virou para Andrea e lhe agarrou o braço, lhe sorriu e encostou-lhe a cabeça no ombro, durante um instante não se mexeu e, depois, empurrou-o com as mãos que o haviam abraçado, baixou os olhos, deixou-o e foi para outra mesa.
“Vai à espera que vá atrás. Serão filosofias mas acontecem. Eu procedi de outro modo. Fui para a cama com ele, estive na sua casa e com o filho, recebi-o no meu quarto, ia ficando grávida por sua culpa. Mas deixei-o, quando foi preciso. Esta nunca mais o larga.”
E disse:
— Talvez. Mas, se uma pessoa não anda com quem ama, com quem é que anda?
E o Memmo, que não queria ter ilusões, disse:
— Anda ao que pode. Somos todos criaturas de Deus, não sabias? Criaturas de Deus, no amor e no disparate. Como nós, não é verdade?
Ela compreendeu a ironia: julgava que queria diminuí-los, vingar-se, que se chegara à procura de um parceiro. Enganava-se. A força do amor deles impressionava-a. Era só isso. Também, a inveja que não confessaria. Nunca mais haveriam de separar-se aqueles dois. Não se entendiam mas continuavam a tentar entender-se. Feriam-se e feriam-se voluntariamente. Provocavam-se, magoavam-se e sabia que era a maneira de tentarem continuar juntos, apesar do medo.
“O medo, eu também o tive! Viver com uma pessoa para sempre! E daquela maneira! Despedaçam-se!”
-Sabes, não sabes?
-O quê, Alberto?
-Quanto mais os amantes querem possuir-se mais, instintivamente, se defendem e se recusam.
-Eles não são amantes.
-É ainda mais triste.
-Eles não são amantes...
Andrea e Lorenza iam além do que alguma vez ela seria capaz. Não se deixavam, insistiam na dificuldade, aceitavam a luta e era a esperança que lhe fazia inveja. Esperanças tivera muitas, mas aquela! É verdade que se arranjava mas, enquanto se lembrasse deles, ficaria hesitante, entre os dois modos: o dela, que cortava a direito e o de Andrea e Lorenza, que pareciam girar um à volta do outro, apaixonados, sem quererem partilhar o amor. Consolava-a pensar que não tinham coragem mas, nesse girar à volta, reconhecia qualquer coisa que a afastava e que, sem ela, viveria: o amor deles. E doía-lhe.
-Olha! — exclamou Francesco Orio. — Ainda acaba mal!
Juntara-se um grupo e, a meio, Andrea discutia. Ouviam-se gritos lá ao fundo.
— Vão pegar-se à porrada — disse Alberto.
Andrea agarrou um pelo casaco e sacudiu-o, ao que esse reagiu, fazendo o mesmo. Abanaram-se e insultaram-se.
— Não se resolvem... —comentou, pesaroso, Francesco.
Os circunstantes interpuseram-se, eles continuaram a gritar e nada mais.
— Era por causa da Lorenza — explicou Alberto — O outro deve ter sido malcriado e a Lorenza está nervosa.
— Já se esqueceram. Já lhes passou o nervoso. Fazem estas fitas e depois esquecem.
“Que azar!”, pensou Caterina “Que fitas inúteis!”
E, quando menos o esperava, ou esperava-o?, porque nunca tirara os olhos dos dois, viu uma coisa que a chocou e afligiu: os outros metiam-se ao meio e aquele que Andrea abanara, de braços caídos, ria-se-lhe na cara e Lorenza espreitava de viés e ria-se. Depois,, pendurou-se do que a ofendera e foi com ele. Foram direitos à porta, ela a equilibrar-se no seu braço.
-Agora é que isto estoira!
— Para mim já acabou, Alberto. — disse Caterina— Tenho de me levantar cedo. Boa noite.
E deixou-os assistirem ao resto. Era com eles e não queria meter-se, outra vez, ao meio. Se pudesse, arrancava-os dali, mas não podia. E deixou-os como se fossem doentes e lhes faltasse ar para respirarem.
“Parecem uns palhaços! Não devem ser felizes.”
Antes, quando andava com ele, julgara que era Andrea que dependia de Lorenza e essa sujeição revoltava-a: o homem de quem gostava nas mãos de uma qualquer, o homem com quem dormia e a quem se dera, degradava-se, consentindo. Agora percebia que era um desastre. Ele não se degradava, precisava daquilo. Acontecera que, ao abraçá-lo, sentira que lhe fugia e, por mais que o apertasse e beijasse, o seu corpo não lhe pertencia, chegava ao prazer e ele também e eram duas coisas distintas, não se misturavam. “Por onde anda? Com aquela idiota? Coitadinho! Não merece!” E, porque gostava dele, vinha-lhe vontade de continuar a abraçá-lo e a amá-lo: “É frágil, é ela que abusa”. Mas reparava que Lorenza dependia de Andrea: sem Andrea a olhar para ela, o teatro de Lorenza, a comédia, os movimentos desgarrados perdiam a razão de ser e desarticulava-se, ficava encostada aos cenários, com uma expressão parada e cabelos de palha.
— Não achas? — perguntou a Alberto.
— O quê? — disse o Memmo, sobressaltado, quase a entornar o copo.
— Não achas que parece um mordomo atrás de uma falida?...
Alberto espreitou-a pelo rabo do olho:
— Quem?
— Aqueles dois. Vieste com o Andrea?
— Não, já cá estava —mentiu Alberto.
-Está sempre toda a gente aqui...
-Tens razão, Veneza é um mundo que nos atira para cima uns dos outros.
E, já seguro de si, perguntou:
— Tens ciúmes?
— Eu não.
Era-lhe indiferente o que pensava Alberto. Não a afligiam os ciúmes, tinha pena deles, quando os outros se riam de Lorenza, que falava alto e de Andrea, que a acompanhava.
—Os amantes são assim. —disse Alberto, com voz arrastada, não por causa do vinho, mas porque lhe custava— Agridem-se e não sabem estar juntos.
— Isso é filosofia! — respondeu Caterina, a roubar-lhe um gole do copo — Quem ama, não larga! Agarra até não poder mais, aperta, até que seja só o calor do outro.
—Filosofia tua...
-Será.
Talvez Alberto tivesse razão: juntava palavras e esquecia-se de que mandara embora Andrea, quando se cansara. Mas viu Lorenza que se virou para Andrea e lhe agarrou o braço, lhe sorriu e encostou-lhe a cabeça no ombro, durante um instante não se mexeu e, depois, empurrou-o com as mãos que o haviam abraçado, baixou os olhos, deixou-o e foi para outra mesa.
“Vai à espera que vá atrás. Serão filosofias mas acontecem. Eu procedi de outro modo. Fui para a cama com ele, estive na sua casa e com o filho, recebi-o no meu quarto, ia ficando grávida por sua culpa. Mas deixei-o, quando foi preciso. Esta nunca mais o larga.”
E disse:
— Talvez. Mas, se uma pessoa não anda com quem ama, com quem é que anda?
E o Memmo, que não queria ter ilusões, disse:
— Anda ao que pode. Somos todos criaturas de Deus, não sabias? Criaturas de Deus, no amor e no disparate. Como nós, não é verdade?
Ela compreendeu a ironia: julgava que queria diminuí-los, vingar-se, que se chegara à procura de um parceiro. Enganava-se. A força do amor deles impressionava-a. Era só isso. Também, a inveja que não confessaria. Nunca mais haveriam de separar-se aqueles dois. Não se entendiam mas continuavam a tentar entender-se. Feriam-se e feriam-se voluntariamente. Provocavam-se, magoavam-se e sabia que era a maneira de tentarem continuar juntos, apesar do medo.
“O medo, eu também o tive! Viver com uma pessoa para sempre! E daquela maneira! Despedaçam-se!”
-Sabes, não sabes?
-O quê, Alberto?
-Quanto mais os amantes querem possuir-se mais, instintivamente, se defendem e se recusam.
-Eles não são amantes.
-É ainda mais triste.
-Eles não são amantes...
Andrea e Lorenza iam além do que alguma vez ela seria capaz. Não se deixavam, insistiam na dificuldade, aceitavam a luta e era a esperança que lhe fazia inveja. Esperanças tivera muitas, mas aquela! É verdade que se arranjava mas, enquanto se lembrasse deles, ficaria hesitante, entre os dois modos: o dela, que cortava a direito e o de Andrea e Lorenza, que pareciam girar um à volta do outro, apaixonados, sem quererem partilhar o amor. Consolava-a pensar que não tinham coragem mas, nesse girar à volta, reconhecia qualquer coisa que a afastava e que, sem ela, viveria: o amor deles. E doía-lhe.
-Olha! — exclamou Francesco Orio. — Ainda acaba mal!
Juntara-se um grupo e, a meio, Andrea discutia. Ouviam-se gritos lá ao fundo.
— Vão pegar-se à porrada — disse Alberto.
Andrea agarrou um pelo casaco e sacudiu-o, ao que esse reagiu, fazendo o mesmo. Abanaram-se e insultaram-se.
— Não se resolvem... —comentou, pesaroso, Francesco.
Os circunstantes interpuseram-se, eles continuaram a gritar e nada mais.
— Era por causa da Lorenza — explicou Alberto — O outro deve ter sido malcriado e a Lorenza está nervosa.
— Já se esqueceram. Já lhes passou o nervoso. Fazem estas fitas e depois esquecem.
“Que azar!”, pensou Caterina “Que fitas inúteis!”
E, quando menos o esperava, ou esperava-o?, porque nunca tirara os olhos dos dois, viu uma coisa que a chocou e afligiu: os outros metiam-se ao meio e aquele que Andrea abanara, de braços caídos, ria-se-lhe na cara e Lorenza espreitava de viés e ria-se. Depois,, pendurou-se do que a ofendera e foi com ele. Foram direitos à porta, ela a equilibrar-se no seu braço.
-Agora é que isto estoira!
— Para mim já acabou, Alberto. — disse Caterina— Tenho de me levantar cedo. Boa noite.
E deixou-os assistirem ao resto. Era com eles e não queria meter-se, outra vez, ao meio. Se pudesse, arrancava-os dali, mas não podia. E deixou-os como se fossem doentes e lhes faltasse ar para respirarem.
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