domingo, 21 de março de 2010

O dia de hoje: nós e os zombies...





A ILHA DA MORTE

David Almond, autor de sucesso que escreve para a adolescência, pôs na boca de uma das suas figuras: “O mundo está cheio de nada” –que é como quem diz (ou quer dizer): o mundo esvaziou-se e as pessoas não têm nada dentro.



Não por acaso Shutter Island, de Martin Scorsese, abre com a chegada, em 1954, de Teddy Daniels, agente da FBI (um Leonardo DiCaprio de qualidade), a um hospital psiquiátrico -Ashecliffe- cujo portão recorda a entrada do sinistro Auschwitz. Teddy Daniels, que combateu, nos anos 40, na Europa, durante a segunda grande-guerra, recorda, muitas vezes, os campos de extermínio nazis, onde se destruía a pessoa humana, esvaziada de alma, de identidade, transformada em objecto de todas as sevícias. pau para toda a obra. Ashcliffe é dirigido pelo Dr. Cawley, especialista da cura de criminosos (criminosos?, tudo é ambíguo no filme de Scorsese), recorrendo à lobotomia, operação ao cérebro, que faz dos pacientes seres sem vontade. Naturalmente, Cawley lembra o Dr. Mengel, o “anjo da morte” nazi, que usou os prisioneiros, os judeus, os ciganos, os marginais, como cobaias. E aquilo que Teddy vai descobrindo são resíduos humanos, ex-pessoas, homens e mulheres que o foram e passaram a coisas –facilmente dirigidos e condicionados. Um potencial exército de autómatos?



Mas não devo contar o resto: roubar ao leitor a curiosidade que -espero- o levará a ver uma obra notável, actualíssima e de exemplo.



O 1954 de Shutter Island e a data de hoje não se distinguem. Vivemos num mundo onde pululam zombies: homens-produto. De quê? Da grande máquina neo-capitalista à qual não convêm homens com identidade, inteligência, vontade. Porque os totalitarismos do século passado reaparecem embrulhados no nada descartável em que se diluem as personalidades.

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