segunda-feira, 29 de março de 2010

'O Pássaro de Vidro' -Epílogo 4

óleo de Paul Delvaux


-Gostava que te sentisses bem, aqui... Que desabafasses.
Andrea encolheu os ombros.

-Foi o que foi! Nem eu sei! Precisávamos de nos ver. Íamos um para o outro de boa-fé. E o que conseguíamos era dizer asneiras ou ficar calados. Nunca acertámos! Fartei-me de andar com ela ao lado, calada. E não sabia que dizer-lhe. O que deveria dizer-lhe? Quando falávamos, desentendíamo-nos. E tinha medo de estragar tudo e que ela se fosse embora. E, por isso, não lhe dizia a verdade, punha-me a adivinhar o que ela gostaria de ouvir, e enganava-me. Acho que me enganava, porque ela não me respondia e fechava-se mais. E eu metia-me na minha desconfiança e não saía dela. Um círculo vicioso. Não precisas de me dizer.
— Mas por que é que vocês se apaixonaram e não apro­veitaram o vosso amor? Encontraram-se, conheceram-se, andaram juntos, e separaram-se antes do mais importante começar!
— O mais importante? O que era o mais importante? Começou, e de que maneira! Se calhar, importante era aquilo, a companhia, apesar de não a aprofundarmos. E, depois, quem disse que não a aprofundávamos? Estávamos de boa-fé e a culpa não era nossa.
— A culpa da honestidade?

Havia quase troça, na pergunta e Andrea sentiu-se.
—Nunca largámos a boa-fé, por mais que doesse! Éramos assim!
Bernardo emendou:
— Eu quase não a conheci...
O rosto de Andrea iluminou-se:
— Se a conhecesses, encontravas uma mulher verdadeira!
-Mas não duvidaste dela?
-Eu? As dúvidas eram nossas, minhas e dela. Vivíamos nisso e muitas vezes duvidávamos mais de nós próprios do que um do outro. É verdade que me fugiu sempre mas deu-me o suficiente para que eu não tivesse razões para a abandonar. Vinha e deixava-se estar. É verdade que não me dizia muitas coisas, mas estava ali. Se eu quisesse, empurrava-a e não a empurrava porque não tinha coragem e tinha medo de ser injusto e de não a deixar mudar de ideias, chegar-se mais. Não a empurrava porque gostava dela, do seu corpo. Ficava ao pé dela, na esperança de a ajudar e na certeza de que precisava dela. Nada na manga.

— O que havias de ter na manga?
E procurou consolá-lo.
—Pelo menos, uma vez vocês gostaram um do outro: quando ainda não pensavam nisso e não conseguiam desprender-se. Nesse momento, ninguém vos podia separar e vocês não queriam saber das razões que vos aproximavam. Eram livres.
— Livres de nós próprios...
E olhou para ele, surpreendido:
- Como sabes isso?
— Sei, porque não sou parvo e porque também já me aconteceu.
— Com a Laura?
— Com a Laura e com outras: estar quietinho, ao lado de uma pessoa, receber o que me dá e não per­guntar nada. O pior é querermos saber. Estragamos tudo.
—Isso é verdade.

Bernardo hesitou. Dissera aquilo porque desejava que assim fosse e ele concordara. Então, não era só seu o desejo? Então era verdade o que dissera? O amor valia a pena, justificava sacrifícios, apesar da violência? Andrea contava a história de uma relação profunda e ele lembrava as suas e voltava-lhe a esperança do que não tinha: a companhia perfeita. Se durava tanto e sobrevivia aos anos e aos desencontros, o amor era realmente importante e talvez a casa viesse a iluminar-se.

— Foi muito difícil, fiz o que podia e a Lorenza também. Mas não chegou.

Bernardo não queria afastá-lo de Lorenza nem lembrar-lhe que se casara, tivera um filho, uma criança, loira como ela. O assunto estava arrumado mas ele próprio não queria. A aventura de Lorenza e Andrea exaltava-o. Gostava da casa, do cão, da lareira, não se queixava dos doentes nem do que lhe pediam mas acontecia-lhe desejar que tudo vibrasse de outra maneira. Às vezes, sentia-se sozinho e nada lhe chegava, nem Laura, nem a casa, nem o cão, nem o hospital. Duvidava de si porque não lhe chegavam aquelas coisas e as aceitava como se bastassem.

— Dei-lhe tudo.
— Tens a certeza?
— Dei-lhe o meu amor!
Bernardo, espicaçado ainda pela insatisfação, observou:
-Essa é a tua maneira de ver.
-Não tenho outra! Não posso falar por ela!
Bernardo fez um gesto vago.
-Sim...

Durante muito tempo ficaram calados, abismados nas recordações, até que Bernardo quebrou o silêncio:
— Vamos jantar? Cozinhamos qualquer coisa lá dentro. Tenho um arroz de ontem...
— Bebia uma aguardente...
Serviu-lha e retomou a história interrompida, a desculpar-se:
— Amaste-a e o amor é o que é...
— Eu a procurá-la e ela a fugir. Deveria tê-la deixado? Ou deveria meter-lhe as mãos pelas saias? O meu erro foi não lhe saltar para cima? Não fui capaz de a violar e era isso que ela queria? Quem sabe? É o amor, dizemos. Se não te impões, estás tramado.
— Talvez ela esperasse que te impusesses e provasses que a amavas.
— Na minha situação, o que fazias?
— Provavelmente, o que tu fizeste.
— Eu não podia fazer mais! Já imaginaste a minha vida? A Luísa atrás e o Roberto!
— Por que procuraste com Lorenza?
— Porque ela ia no barco eu estava sozinho. Era um momento difícil. Acontecera o sarilho com a Luísa. O Roberto andava de uma casa para a outra. Mas foi mais do que isso. Prendeu-me a beleza, o corpo dela, a frescura e o modo como se deixou aproximar. Uma pessoa nova e eu tinha, atrás, as velhas.
— E depois?
-Aconteceu o que sabes, os telefonemas, os encontros, depois..., afastámo-nos.
-E ficou por aí?
-Não. Escreveu-me cartas.
— E não te lembras do que diziam?
— Lembro-me. Queres que te repita?
Bernardo hesitou mas respondeu:
— Pois sim, sempre é melhor do que nada. Fecha-se a história.
—Mandava-me cartas do arco-da-velha! Confessava o que não devia.
— O quê?
— Sei lá! O que eu te contar é só parte, não posso lembrar-me de tudo. Mas recordo que dizia que a vida não valia a pena, nada a satisfazia, condenada à infelicidade, antes não tivesse nascido, mais valia morrer. Era uma desgraçada. Apetecia-lhe virar as costas, enroscar-se, gozar as próprias fraquezas. Achava que fora bom encontrarmo-nos, mas não levaria a nada. Assim dizia. E eu perguntava-me: por que não levaria a nada? E o que fora bom? As idas a Burano? Os passeios pelas Zattere? As vezes em que andávamos, com frio e nevoeiro, à espera de que um de nós falasse?
— Achas pouco? E falaram?
-Claro! Mas raramente dissemos o que queríamos. E muito menos aquilo que o outro esperava. Enganámo-nos sempre. Ou, se calhar, gostávamos de arrastar.
E acrescentou, com raiva,:
— Pelo menos ela parecia que gostava!
— De quê? — perguntou Bernardo, a ver até onde é que ele ia.
— Disso mesmo, da nossa infelicidade! Regalava-se. Nunca quis outra coisa.
— Não podias ajudá-la?
— Nunca esteve ao pé de mim.
— Não acredito!
— Quantas vezes esteve ao pé de mim?
— Como queres que saiba?

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