óleo, 1999, de Aldo Zari, Museo Nuovo Rinascimento, Venezia Conheci Aldo Zari constantemente pobre e, no entanto, as suas mãos andaram sempre carregadas de oiro. Mãos de veneziano antigo, com as barbas esparsas pelos canais.
Os mínimos óculos reflectem a constelação sobre a cidade. E as calças curtas, que mostram as peúgas, querem dizer que se esqueceu de que já não chove.
Vem de São Stae, Palazzo Carminati, onde há outros artistas sem dinheiro. Em Santa Mater Domini, pergunta-se se acredita em Deus e, no Campo São Polo, espreita o gato que acompanhou um dos seus amores. Espreita-o, de cima do casacão azul e da surpresa de voltar a ver o gato. E, chegado à ponte da Accademia, está em cima do Grande Canal, olha para a laguna.
As mãos de oiro, com a água marinha herdada de outro amor, poisam na madeira. De longe -do Lido, de São Giorgio-, vem um barco. O nosso artista partirá nesse barco.
Veneza é a sua cidade.
As cores de Aldo espelham-se em Veneza: azul, vermelho, preto, verde. Branco. Juntam-se os pontos e recriam um lugar que só existe porque inventado: ilhas a levantarem-se, com pessoas dentro.
A cidade vive. Tal qual a nossa alegria, a nossa juventude e a nossa ingenuidade.
Bens perdidos? Às vezes, Aldo demora-se nas ‘osterie’, bebe um, dois, três, quatro copos de vinho. E chega-lhe. Desse modo, a paz: quando pinta, procura os outros, quando bebe, os outros vêm ter com ele. Dentro do coração.
Há quantos anos o teu bibe deixou de ser um bibe? Bens perdidos? Quem o sabe? Os bens provocados voltam a bens. Por instantes, nos olhos das pessoas, aflora a nostalgia. E lá vai o nosso pintor direito à luz. Lá se arrisca o animal.
Quando Veneza se ilumina, pega-te no braço e já levas o medo de um breve encontro. São, sempre, breves e eternos os encontros. São o que são. Não há mais.
Em Campo Sant’ Ângelo abraça as fúrias e multiplicam-se os sons, desde Cimarrosa. Aguenta-se a alma. O judeu Manin espera Zari, na praça seguinte, a perguntar-lhe: “Também a ti perseguem, por seres tu?”.
Uma certa amiga diz-lhe adeus: olhos claros, cabelo doirado, pernas habituadas a caminhar. Dessa menina (e de outras, herdadas de Giambellino e de Lotto) tira Zari o perfil que está por trás da sua pintura.
As cores, os pontos, as linhas, têm a humildade de serem só isso e, sendo-o, apontam outras coisas: um rosto, um pássaro, um espermatozóide apressado. A bola cheia de cores de uma criança. A simetria ou a fatalidade brutal da vida biológica. E o sonho. Dentro daquilo tudo, reinventa Aldo a aventura. Parte, com os cores, a caminho do reino de Ali-Bábá e obriga-nos a perguntarmo-nos o que fizemos da aventura. É tão desgraçada a nossa vida que nos esquecemos do azul?
Com Zari a aventura é possível. Não tem garantia, mas ela aí está: a grande viagem: a grande ilusão: a grande festa. A única. Não há outra.
Cores, formas, desenhos. Aldo oferece-nos a possibilidade de não nos perdermos: o seu é o nosso único labirinto imaginável.
Toca, meu amigo, com amor, as cores de Zari, com o amor com que Zari chega a Santa Maria Formosa. E, lá, encontra o nosso artista, que acende mais um cigarro, o palácio abandonado, o poço, o café de luzes apagadas. Tem só essas coisas.
Mas as linhas de Zari acompanham-nos e tu reconheces-te. Na delicadeza das linhas, na inocência. Ou não há mulheres formosa em Santa Maria Formosa?
Ou não descobres, adiante, em SS. Giovanni e Paolo, as linhas essenciais do Colleoni de Verrochio?
Senta-se o pintor na Café do Cavalo e ninguém se atreve a olhar para os seus sapatos gastos. São os olhos azuis que cegam os outros.
Abre-se a porta de Veneza e a nossa alma repousa. Imaginas cores, formas.
Se não for assim, valerá a pena? Se a realidade não for imaginação, se o encontro com as pessoas não for possível, vale a pena? Se eu não inventar o teu rosto e tu não inventares o meu, vale a pena?
As cores não se apagam.
Levantam-se as cores de Aldo, direitas ao horizonte, pegam-lhe. Metem-lhe a vida dentro e tornam as nuvens criaturas, o rosto de Deus.
E vamos com as cores. Elas dizem que podemos segui-las. Aproximar-nos de outros mundos, os tais que há.
Ou queres suicidar-te?
Aberta a porta, eis a lagoa: peixes, homens e o resto. Ela, com os cabelos metidos no verde e no encarnado. Casas, barcos, pássaros. A asa branca do fantasma que não se retirou a tempo. E por que haveria de retirar-se? Tem o fantasma os ossos esquecidos nas pinturas de Zari e, quando agarrado aos ossos do alto Zari, se articula, a realidade anima-se, deixa de ser a juros para ser fantástica.
Mete a mão na realidade feita maravilha e deixa que o barco te leve até Torcello, a ilha deserta da laguna. Deixa a pureza revelar-se em Burano, a ilha pintada, e respira a alegria de seres tu e de poderes perder-te e não seres nada.
Dá a mão a Mestre Zari e confia na sua incapacidade de ser uma pessoa crescida.
Dá a mão ao milagre da vida.
Azul, vermelho, preto, verde, branco.
São Marcos, Santa Margarida, São Barnabá, São Polo.
Aldo, vestido de marinheiro, há tantos anos.
in Crónicas Italianas, Difel, 1984
Gosto de pintura, muito.
ResponderEliminarGosto dos trabalhos do seu amigo Veneziano.
Pelo que escreve, vê-se que gostava muito dele, são essas as amizades que valem.
Já gosto de Aldo Zari, como pessoa.
Neste texto, ele está vivo.
Você, escreve bem, muito bem.
Manuel, um abraço.
Belo!
ResponderEliminarComo eu gostava que o barco me levasse até Torcello e perder-me...
Meu Caro Helder,
ResponderEliminaresse texto foi esctito e publicado no "Jornal de Notícias", em 1982... Ainda o Aldo era vivo.
Sim, o Zari é um grande pintor e foi um dos meus maiores amigos. À sua maneira, único, porque o era: único.
Veneza e ele são, para mim, a mesma pessoa. Obrigado.
Um abraço.
Sempre que fala de Aldo Zari, há qualquer coisa de comovente nas suas palavras.
ResponderEliminarPena "As crónicas" estarem esgotadas.
Isabel
Isabel,
ResponderEliminarEste texto foi escrito em 1982, publicado no “Jornal de Notícias” e, em 1984, nas “Crónicas italianas”.
O Aldo foi um dos meus maiores amigos. Único. Especial. De uma inteligência, sensibilidade e cultura superiores.
Com ele, aprendi a conhecer Veneza melhor do que qualquer outro lugar. Com ele, aprendi a entender a pintura.
Convivemos em Veneza, na nossa casa de Roma, em São João do Estoril... por toda a Itália.
Sabíamos tudo um do outro: o mal e o bem.
Admirei-o, desde a primeira hora, profundamente.
Admirei a sua autenticidade e a sua imensa capacidade de trabalho.
Viveu dedicado absolutamente à sua vocação e viveu pobre.
Deus deu-lhe duas coisas: o génio, que é terrível, e... poder viver num pequeníssimo apartamento de Veneza.
Indignou-me, desde o primeiro momento, o silêncio que existia à sua volta –a incompreensão.
Mas ele não fazia um gesto para se tornar famoso; limitava-se a trabalhar, com a constância de Miguel Ângelo, de Proust, de Camilo.
Era um aristocrata –em todos os sentidos: delicado; simples, e, filho de gente simples e pobre, mais senhor do que os mais poderosos ou dos que se dizem de sangue azul.
Era de um mundo especial: um renascentista.
E uma pessoa de finíssima espiritualidade.
Vê-lo menosprezado, ignorado, revoltava-me, angustiava-me.
Morreu pobre e com uma dúzia de admiradores.
Vê? Eu não digo?
ResponderEliminarFala dele duma maneira tão especial.
Deve ter sido uma pessoa extraordinária.
Uma amizade assim,e mútua,só se encontra uma vez na vida.Duas almas gémeas na amizade.
É lindo.
Invejo-o.
E gostei de Aldo Zari e da sua pintura desde que vi aqui pela primeira vez.Gostava de o ter conhecido.Tenho a certeza que gostaria dele.
Um abraço
Isabel
E tem razão, Isabel.
ResponderEliminarGostaria dele, com certeza.
E uma amizade como foi a nossa só se encontra uam vez na vida.
Sinto um grande vazio dentro de mim. Compenso-o, admirando as obras dele. Tenho seis ou sete óleos e incisões, desenhos.
Aí reencontro-o. Mas não é a mesma coisa do que as nossas infindáveis conversas e aventuras!
Tantas vezes, à lareira da nossa casa de Roma, até de madrugada, o copo de wiskhy na mão, às vezes, a fumarmos umas cigarrilhas os "toscani"...
Ou pelas "osterie" de Veneza... pelo Campo dè Fiori e pela Navonna, em Roma...
Uma vez, em San Marino, comemos um prato que se chamava "Strozza preti", que se traduz "Estrangular padres", e o Aldo nunca mais se esqueceu do nome porque era um anticlericalista de primeira e um irreverent... NO regresso, o carro entrou numa poça de óleo e voou e... posou... Era um carro com o chassis blindado e o peso evitou o pior... Não interrompemos a nossa conversa, mas ele referia-se frequentemente a esse "voo" quase mortal...
Pequenas coisas de uma grande amizade...
Sei bem o que é esse vazio...
ResponderEliminarEssa de "Estrangular padres" tem piada.Fez-me rir.(E imagino a risota...)
É isso, as pequenas coisas duma grande amizade, que nunca esquecem e que nunca mais ninguém vai preencher.
(Ainda me há-de dizer o que são "incisões".Não sei o que são.)
Um abraço
Isabel
Isabel,
ResponderEliminarE nem tem nada que saber o que são... Eu é que fui puxado pelo italianismo:
usei incisão, a partir de incisione=gravura.
São gravuras.
Ah!
ResponderEliminarPercebi.
Obrigada.
Isabel