...os degredados filhos de Eva, gemendo e chorando neste vale de lágrimas... Um homem que não ama é um homem morto. E o retrocesso, sinal do nosso tempo, impõe-nos sufocarmos os sentimentos.
Claudio Magris publicou, no “Corriere della Sera” 07/04/11), um artigo admirável, pertinente, corajoso, onde, acerca da vaga migratória, tão temida por toda a Europa, escreve: “O mundo inteiro é um impudico, ambíguo, teatro de desigualdade”. Explicita: um palco da “inaceitável desigualdade, à partida, entre os homens”.
A tolerância de tal barbaridade significa regressão. E a regressão é, sempre mais o alicerce daquilo a que os nossos egoísmo e indiferença chamam progresso.
Não há emigrantes voluntários: só emigra quem não está bem onde está. E, a quem está bem, cabe o dever de acolher os que o procuram e ajudá-los. Inclusivamente, apoiá-los na busca das condições de que não usufruíam e cuja carência obrigou ao exílio.
Recusar o outro é auto-desqualificação, degradação.
Magris fala dos “ danados da terra” (descritos, brutal e apaixonadamente, há cinquenta anos, por Franz Fanon), refere as vítimas da nossa recusa.
Nem seria preciso evocar Franz Fanon, trazer, aqui, Magris, para os mostrar aqui: só um cego não os vê. E é nossa obrigação denunciar esse crime, pois dele participamos. Consentimos no “progresso”, na marcha para a desumanidade, amoralidade, irresponsabilidade. Marcha que nos conduz à morte interior, à morte da alma e à solidão.
Ela autoriza o duplo crime: ignorar o outro e transformarmo-nos em objectos: peças da grande máquina fazedora de “produtos” destinados ao mercado onde tudo brilha e se desfaz. Onde os cadáveres se acumulam.
E, dentro da nossa vida morta, ignoramos a tragédia daqueles que se afogam, algures, no Mediterrâneo, emigrantes desesperados, “apagados pelo mar, como se nunca tivessem existido, sepultos sem um nome”.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias, 17/04/11
O que dizer de tanta profundidade?
ResponderEliminarTocou-me no fundo... silêncio.
O que é profundo, profundamente indecente é a nossa passividade diante da corrida sem moral nem limites dos neo-cpaitalistas que nos tratam como gado! Um abraço, Ana. Compreendo a sua escolha para 5 de Junho.
ResponderEliminarBem dito. Pois jà que Vc morou em Italia e bem conhece a nossa situação posso dizer, como italiana, que sinto-me mais representada do Magris e daquilo carabineiro que a Pantelleria a semana passada em uniforme mergulhou no mar pra resgatar pessoas que arriscaram afogar.
ResponderEliminarLa capisco benissimo!
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