Vista de Lisboa, quadro de Carlos Botelho (1899-1982)Sempre que topo alguma obra da qual constem páginas de Raúl Brandão, compro-a e devoro-as.
Desta feita, encontrei o Mestre d’ Os Pobres na casa dos milagres: a Livraria Lumière, à Rua de Cedofeita, no Porto.
É um livrinho intitulado Raul Brandão & Columbano, antologia mínima que Manuel Mendes publicou nos idos de 1959 (Jornal do Foro) e junta artigos esquecidos de Brandão e cartas trocadas entre este e Columbano.
Transcrevo algumas linhas de abertura a “Uma visita a Columbano", que me encantaram e afligiram:
Desta feita, encontrei o Mestre d’ Os Pobres na casa dos milagres: a Livraria Lumière, à Rua de Cedofeita, no Porto.
É um livrinho intitulado Raul Brandão & Columbano, antologia mínima que Manuel Mendes publicou nos idos de 1959 (Jornal do Foro) e junta artigos esquecidos de Brandão e cartas trocadas entre este e Columbano.
Transcrevo algumas linhas de abertura a “Uma visita a Columbano", que me encantaram e afligiram:
‘O ilustre pintor vive numa velha habitação, para as bandas da Rua da Alegria. É um grande casarão amarelo, metido dentro de um pátio, e que, entre os horrorosos prédios de Lisboa, conserva ainda carácter. Outrora as casas eram quase como pessoas: havia-as simpáticas e alegres como velhinhas; havia-as com feitios de birra, sardentas e insolentes... Hoje o ideal é este: o prédio, a uniformidade, o horror...
Pois a habitação de Columbano tem ainda individualidade. Na Primavera, uma trepadeira, que corre as janelas, enverdece. As traseiras dão para um quintal ensolhado, para um jardim derrubado e triste, onde velhas fruteiras indiferentes continuam a reflorir e a crescer. Chegando a Agosto o pátio sombrio e fresco tem um ar conventual, e tudo aquilo, perdido no rumor de Lisboa, repousa, como um pedaço de campo, a seis passos da Avenida...’
Pois a habitação de Columbano tem ainda individualidade. Na Primavera, uma trepadeira, que corre as janelas, enverdece. As traseiras dão para um quintal ensolhado, para um jardim derrubado e triste, onde velhas fruteiras indiferentes continuam a reflorir e a crescer. Chegando a Agosto o pátio sombrio e fresco tem um ar conventual, e tudo aquilo, perdido no rumor de Lisboa, repousa, como um pedaço de campo, a seis passos da Avenida...’
Deslumbrou-me a força e a delicadeza da evocação; afligiu-me verificar, mais uma vez, que vivemos num mundo morto.
O artigo data de 28 de Dezembro de 1898. Passaram 112 anos. E, agora, nós vivemos em coelheiras, em caixas de sapatos, umas em cima das outras, com buraquinhos que mal deixam passar a luz, não nos mostram nem o Sol nem a Lua nem as estrelas, presídios gelados, ao correr de estradas vazias ou apenas cheias de barulhos desconexos e fumos envenenados, desconhecendo tudo e todos e desaprendendo a conhecermo-nos a nós.
O artigo data de 28 de Dezembro de 1898. Passaram 112 anos. E, agora, nós vivemos em coelheiras, em caixas de sapatos, umas em cima das outras, com buraquinhos que mal deixam passar a luz, não nos mostram nem o Sol nem a Lua nem as estrelas, presídios gelados, ao correr de estradas vazias ou apenas cheias de barulhos desconexos e fumos envenenados, desconhecendo tudo e todos e desaprendendo a conhecermo-nos a nós.
Venho agradecer a sua amabilidade em seguir o meu blogue. Soube através de MJFALCÃO que, depois de ter passado por aqui, me visitou.
ResponderEliminarFoi um prazer ler este post. Gosto imenso de Raul Brandão e de Columbano.
Concordo inteiramente com a sua ideia sobre as pequenas caixas que são as nossas habitações. Chamo-lhe pequenas caixas por causa de uma música que Pete Seeger cantava "Little Boxes". ver aqui
A pintura de Botelho é repousante!
Boa noite!
Querida Ana, Não tem nada que agradecer, o seu blog é precioso: é do melhor que há e enche-me a alma muitas vezes.
ResponderEliminarSim, odeio esta urbanização que vai destruindo todas as cidades, grandes e pequenas. Vivemos num deserto gelado.
Brandão é extraordinário.
Um grande abraço e até amanhã!