Manuel Jardim era um homem apaixonado pela mulher –a mulher valor absoluto, musa indispensável ao seu trabalho, sinal único e insubstituível da beleza.
Várias atravessaram a sua curta vida, em paixões tumultuosas, absolutas e com a morte na raiz, le mal d’amour, de alma instável, insatisfeita, ansiosa, artista pobre, exilado incurável, que voltava à terra a encher os alforges, que é como quem diz, à cata dos vinténs familiares, e logo regressava à pátria de eleição, parigot, presa de Montmartre, do Louvre e da Closerie des Lilas.
De quem será o rosto acima esboçado?
Da flamenga Gina Valeska, ‘alta morena, pretensiosa, tinha mau génio. Bem feita de corpo e fausse-maigre, grandes olhos expressivos, pele finíssima”, cujo ‘influxo na carreira do pintor devia ter sido, se não funesto, sáfaro’?
Do pardalito parisiense, a bailarina Lili, ‘uma rapariga miudinha, de face angulosa e seca, um pouco escanifrada, mas que tinha pernas espirituais e dançava divinamente’?
Ou da mocinha lionesa, Renée, ‘rapariga loira, simpática, sardenta, levemente gorducha’, alma boa e, ao que parece, generosa a ponto de o prender mais duradouramente?
A Renée que o Mestre de “Terras do Demo” -as citações atrás vêm do tal “Por Obra de Graça’- identifica como a comparsa feminina de “Retrato de Mulher ou Le Déjeuner”? E sobre cujo encontro sublinhou Aquilino: 'O olho educadíssimo do pintor não se enganou. Não se enganou com a estampa e teve a sorte de acertar com a bondade. René era o que se chama a excelente rapariga".
É difícil destrinçar.
Manuel Jardim apaixonava-se e renovava as paixões, inevitavelmente fatais, do mesmo modo que saltava de experiência pictórica para experiência pictórica, sempre insatisfeito.
Doente de exigência suicida.
Trouxe de uma viagem a Itália ‘paisagens, marinhas, pochades de todo o género’ -escreve Aquilino- ‘cantavam em gama mais saborosa que Ziem a terra versicolor. Veneza, mormente, explendia numa cromática deliciozíssima verde-alga e oiro velho.’
Mas é Aquilino que lhe põe na boca estas palavras:
“-Como vocês me vêem e eu dou conta que poderia ser, eu lhes digo: um pintor bem conceituado, género oficial, da classe Bonnat. Mas estão muito enganados; ou serei eu, ou não serei ninguém. Pintor como há mais, não!
Deixei-vos três reproduções. Aquilino acena a outras. Não sei delas. Mande dizer, quem sabe, por onde andam! Muito agradecia.
Várias atravessaram a sua curta vida, em paixões tumultuosas, absolutas e com a morte na raiz, le mal d’amour, de alma instável, insatisfeita, ansiosa, artista pobre, exilado incurável, que voltava à terra a encher os alforges, que é como quem diz, à cata dos vinténs familiares, e logo regressava à pátria de eleição, parigot, presa de Montmartre, do Louvre e da Closerie des Lilas.
De quem será o rosto acima esboçado?
Da flamenga Gina Valeska, ‘alta morena, pretensiosa, tinha mau génio. Bem feita de corpo e fausse-maigre, grandes olhos expressivos, pele finíssima”, cujo ‘influxo na carreira do pintor devia ter sido, se não funesto, sáfaro’?
Do pardalito parisiense, a bailarina Lili, ‘uma rapariga miudinha, de face angulosa e seca, um pouco escanifrada, mas que tinha pernas espirituais e dançava divinamente’?
Ou da mocinha lionesa, Renée, ‘rapariga loira, simpática, sardenta, levemente gorducha’, alma boa e, ao que parece, generosa a ponto de o prender mais duradouramente?
A Renée que o Mestre de “Terras do Demo” -as citações atrás vêm do tal “Por Obra de Graça’- identifica como a comparsa feminina de “Retrato de Mulher ou Le Déjeuner”? E sobre cujo encontro sublinhou Aquilino: 'O olho educadíssimo do pintor não se enganou. Não se enganou com a estampa e teve a sorte de acertar com a bondade. René era o que se chama a excelente rapariga".
É difícil destrinçar.
Manuel Jardim apaixonava-se e renovava as paixões, inevitavelmente fatais, do mesmo modo que saltava de experiência pictórica para experiência pictórica, sempre insatisfeito.
Doente de exigência suicida.
Trouxe de uma viagem a Itália ‘paisagens, marinhas, pochades de todo o género’ -escreve Aquilino- ‘cantavam em gama mais saborosa que Ziem a terra versicolor. Veneza, mormente, explendia numa cromática deliciozíssima verde-alga e oiro velho.’
Mas é Aquilino que lhe põe na boca estas palavras:
“-Como vocês me vêem e eu dou conta que poderia ser, eu lhes digo: um pintor bem conceituado, género oficial, da classe Bonnat. Mas estão muito enganados; ou serei eu, ou não serei ninguém. Pintor como há mais, não!
Deixei-vos três reproduções. Aquilino acena a outras. Não sei delas. Mande dizer, quem sabe, por onde andam! Muito agradecia.
Belo post!
ResponderEliminarMuito interessante, as três visões da paixão.
Mas é tão pouco o que se sabe de Manuel Jardim! Se souber, diga!
ResponderEliminarInfelizmente nada sei. Mas se conseguir alguma novidade cá a trarei.
ResponderEliminarBoa noite!
Ainda bem que há mais uma pessoa interessada!Vale a pena ler o livro do Aquilino que eu cito. Um abraço grande e boa noite!
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