segunda-feira, 10 de maio de 2010

Uma Questão de Moedas


...moedas furadas...


Segundo a lei de Gresham, a má moeda expulsa a boa moeda. O fenómeno poderá alargar-se a vários campos. Reparem na proliferação de “politiqueiros” (a política tornou-se numa carreira rentável) cuja mediocridade desconhece a idoneidade e a ideologia. Mas venho falar de livros e da quebra da leitura –da boa leitura, bem entendido, que a de chá de tília floresce nos quiosques dos aeroportos. “Le Figaro Magazine” reuniu três escritores, Michel Déon, Jean d’Ormesson e Alain Finkielkraut, que debateram esse problema: ler ou não ler. E diz d’Ormesson, a citar a referida lei de Gresham: “Não acho que as pessoas não lêem. Lêem menos, isso sim. A responsabilidade cabe, em primeiro lugar, aos editores, que publicam demasiado e os maus livros expulsam os bons”. Ao que poderíamos acrescentar: o neo-liberalismo selvagem, virgem de imperativos ético-culturais, encara tudo e todos como “produtos”, e como tal considera o livro. A qualidade não importa; interessa, apenas, que se vendam. Acontecem, porém, duas coisas: a insistência na mediania -quando não no zero em aproveitamento- sustentada pela publicidade sufocante, desacredita-se a ela própria e desacredita os livros; depois, o leitor cansa-se de buscar, em vão, obra que lhe satisfaça a exigência intelectual. Foram, sempre, os grandes escritores fabricantes de best-sellers? Não. Entre a 1ª e a 2ª edição da obra-prima de Régio, “Poemas de Deus e do Diabo”, contaram-se 18 anos; Tomaz de Figueiredo vende-se aos bochechos e Irene Lisboa nem sei o que vende. Isto para ficarmos em casa. Que fazer? Por exemplo: proteja o MC as pequenas editoras realmente cultas!




publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de 09/05/2010

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