sexta-feira, 21 de maio de 2010

A tourada não passa de uma burla trágica?




Enrique Vila-Matas escreve, em Diário Volúvel (que leio na tradução de Jorge Fallorca, Teorema), definindo o “autor admirável”:

‘aquele que sabe que o que é realmente essencial na literatura se baseia em aprender a ir além das palavras, dançar no abismo no abismo e ‘arriscar’ como o toureiro arrisca perante o mundo rela dos cornos do touro”.

...Vila-Matas a quem, prudentemente, só me chego agora (e não o vou adjectivar) por vê-lo tão citado, tão elogiado, tão admirado por tanta gente.

Nesses casos, sempre desconfio e me retraio.

Há cinquenta anos que conheço o mundo literário e as razões da corrida aos nomes e do fabrico de génios; os cordelinhos da associação de socorros mútuos da feira literata; a ascensão e queda dos autores de best-sellers; a frivolidade e venalidade da pseudo-crítica; a força da publicidade e a ignorância da massa de consumidores de papel impresso.

Mas quero falar de touros e toureiros –com um exemplo no bolso: Júlio Aparício e a cornada que sofreu, ontem, em Las Ventas, Madrid, e a imagem acima fixou, em toda a sua brutalidade.

Sim, Vila-Matas diz bem: o toureio exige coragem. É espectacular; tem elegância e uma certa beleza, porém, beleza mórbida.

E é uma luta desigual, um embuste.

Combate entre dois, toureiro e touro, que o segundo não escolhe e a que se vê obrigado e burlado.

O touro vai ser, progressivamente, enfraquecido, diminuído: os picadores sangram-no; os capinhas estafam-no, embebedam-no, fazendo correr e girar; os bandarilheiros torturam-no e rasgam-lhe mais feridas.

E quando os parceiros –o toureiro e o touro, este parte forçada e condenada à morte antes de entrar na arena-, quando os duelistas se olham nos olhos e o toureiro prepara a estocada final, o touro já não é o adversário que mostram os cartazes: é um farrapo, uma caricatura de toiro bravo –uma semi-fera.

E quem o reduziu ao que é não foi o lidador: foram os ajudantes.

Ontem, Opíparo -assim se chamava o touro- aproveitou uma queda de Júlio Aparício e, num quase último arranque, estertor de revolta e raiva, trespassou-lhe a face e atirou-o para o hospital, em estado gravíssimo.

Opíparo já foi abatido; Aparício está entre cá e lá, mais lá do que cá.

Eis o resultado de uma “arte” e de um duelo falsificados.

3 comentários:

  1. isso e uma coisa muito tragica...

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  2. eu achei doido mas o toro só fes isso para se defender:(:(:(:(:(:(:(

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  3. eu achei interesante pois eles arriscam a vida por isso

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