Manuel Teixeira-Gomes, na Embaixada de Portugal em Londres“Para a minha curiosidade, constantemente alerta, o espectáculo da vida é um constante recomeçar, sempre com a frescura do inédito, desdobrando-se em casos, que se podem assemelhar, mas nunca se repetem exactamente”, escreveu Manuel Teixeira-Gomes, num dos livros mais encantadores e perfeitos: “Agosto Azul”. Obra e vida revelariam a sua personalidade singular. Agnóstico e apaixonado pelos frutos da terra, hedonista com as virtudes dos epicuristas, interessou-lhe, a par da literatura, a política, que nobilitou certas figuras da República, como Afonso Costa e Aquilino Ribeiro. Primeiro embaixador da República, em Londres, onde fez nome e amigos em Buckingham; Presidente da República de 1923 a 1925, ano em que se demitiu e exilou, impossibilitado de conter a direita revanchista –foi, acima de tudo e em todos os sentidos um esteta. Mas, se assinalava que “as grandes, as genuínas obras de arte não são para toda a gente”, acrescentaria: “os poetas e o povo criam a língua; os gramáticos fixam-lhe as regras”. Nascido em Portimão, cosmopolita madurado em grandes capitais europeias, mestre da língua portuguesa, retratou, magistralmente, o seu Algarve, fixou as paixões e conseguiu que o estilo sensualíssimo não sobrepujasse a realidade antes no-la transmitisse complexa e arrebatadora. Por aí, se afirma contemporâneo, recuperando a beleza cuja posse o turbilhão quotidiano, amassado na troca do erotismo pela pornografia, nos rouba. A exaltação dos sentidos, de Teixeira-Gomes, leva à superior harmonia, porque, disse ele, “não cessou jamais, até ao fim do fim, de celebrar serenamente o encanto de viver”.
publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje
Sem comentários:
Enviar um comentário