
'Salamanca, 7 de Maio
Aqui, e apesar de cidade em que se respira província, a vida corre mais depressa. Cidade universitária, eu sei. Mas já me apercebera do movimento na Guarda, onde celebravam, exuberantemente, uma festa académica.
Desde que regressei a Portugal, nos últimos sete anos, apesar de tanto ter viajado depois, Moscovo, São Petersburgo, de regressar a Israel, a Telavive e Jerusalém, de me demorar dois meses, cortados em três fatias, em Londres, vivi longe desse movimento. Não o entendo? Esforço-me por entendê-lo. A juventude que o encarna não anda mais desorientada do que a minha, goza, apenas de uma liberdade muito maior. Poderei dizer: de uma liberdade total, que não tínhamos?
E reparo nos excessos: até onde levam a liberdade, capaz de autodestruição. E no espanto, na perplexidade, no medo que os toma, diante dessa liberdade, que ninguém lhes tolhe: aí se redesenha o desespero ou a busca do suicídio.
No entanto, a sociedade em que esbracejam e se contorcem tem baias e aos que não alinharem dentro dos limites estabelecidos a sociedade esquece-os, agradece-lhes que se marginalizem e destruam.
Eles vão direitos à fogueira, com a inocência e a pureza da criança que não morreu neles, não cresceu –desprotegidos, anhos de Deus...
...os que cruzei, na Guarda, a embebedarem-se, a abraçarem-se, a beijarem-se, já entregues ao excesso, prontos a retomar a vingança da pobreza e da hipocrisia dos dias e a busca do bem, exactamente e só o instante que precede a queda no coma –os que, afinal, alimentam a esperança de uma resposta.'
Aqui, e apesar de cidade em que se respira província, a vida corre mais depressa. Cidade universitária, eu sei. Mas já me apercebera do movimento na Guarda, onde celebravam, exuberantemente, uma festa académica.
Desde que regressei a Portugal, nos últimos sete anos, apesar de tanto ter viajado depois, Moscovo, São Petersburgo, de regressar a Israel, a Telavive e Jerusalém, de me demorar dois meses, cortados em três fatias, em Londres, vivi longe desse movimento. Não o entendo? Esforço-me por entendê-lo. A juventude que o encarna não anda mais desorientada do que a minha, goza, apenas de uma liberdade muito maior. Poderei dizer: de uma liberdade total, que não tínhamos?
E reparo nos excessos: até onde levam a liberdade, capaz de autodestruição. E no espanto, na perplexidade, no medo que os toma, diante dessa liberdade, que ninguém lhes tolhe: aí se redesenha o desespero ou a busca do suicídio.
No entanto, a sociedade em que esbracejam e se contorcem tem baias e aos que não alinharem dentro dos limites estabelecidos a sociedade esquece-os, agradece-lhes que se marginalizem e destruam.
Eles vão direitos à fogueira, com a inocência e a pureza da criança que não morreu neles, não cresceu –desprotegidos, anhos de Deus...
...os que cruzei, na Guarda, a embebedarem-se, a abraçarem-se, a beijarem-se, já entregues ao excesso, prontos a retomar a vingança da pobreza e da hipocrisia dos dias e a busca do bem, exactamente e só o instante que precede a queda no coma –os que, afinal, alimentam a esperança de uma resposta.'
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