sábado, 15 de maio de 2010

Nós e os pássaros...




...e outros animais, naturalmente. Mas é de uma lição de Isaac Bashevis Singer que eu quero falar, antes de mais. O mestre do conto moderno, o grande escritor que, em 1935, abandonou Varsóvia, fugido ao anti-semitismo, e se exilou em Nova-Iorque, tinha o hábito -proibido- de alimentar os pombos do seu bairro. Chamado à ordem pelo polícia de giro, respondeu: “Imagine o senhor que lhe acontece reencarnar feito ave? Gostaria de ser maltratado? Gostaria de morrer à fome?” Não encontrou resposta adequada o agente da autoridade e Singer, aliás vegetariano, prosseguiu a obra samaritana. Bem, isso da reencarnação é uma espécie de turismo das almas, ora hospedadas nos homens, ora nos animais & etc., substancialmente discutível. Mas que tudo merece respeito não se contesta –tudo, talvez, criatura de Deus. Nas minhas andanças por Castilla y Léon, encontrei, no “El País”, um excelente artigo de Jesús Mosterín que denuncia a brutalidade da tauromaquia e cita David Hume e Darwin, apóstolos da compaixão: para o primeiro, emoção moral fundamental e, para o segundo, a mais nobre das nossas virtudes. Argumentam, apaixonadamente, os aficcionados da arte açougueira de sangrar o toiro em vida: “é tradição!” Mosterín replica: as tradições não representam justificações éticas. Não coincidem, necessariamente, com valores morais: por exemplo, o costume da ditadura em tantas terras ou a prática da excisão do clitóris em certas tribos. Isaac Bashevis Singer, quando explicava que presente e futuro encerram qualquer coisa de sagrado, ia além da revolta de Mosterín: defendia o respeito pelo outro, que deitámos às ortigas.

Publicado na Página de Cultura do Jornal de Notícias de hoje

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