quinta-feira, 20 de maio de 2010

Páginas de um diário público: a escolha da morte-viva?

...tempo de enforcados...


A sociedade em que vivemos: impressiona a velocidade com que ela se descultura, arrefece, e se perdem a paixão e o sonho, estiola ou morre o ideal –o imperativo ético.

Lê-se menos -ou o mercado impõe uma avalanche de obras medíocres que nos afastam da leitura-; o cinema abraçou a pornografia e a violência e o fantástico gratuito; a pintura parece uma bicha de rabiar, à procura da originalidade -do tom pessoal- revelador, contas feitas, da incapacidade de se encontrar o artista e do seu gesto de se refugiar no espectacular.

Só o espectacular gratuito -descartável- chama as atenções.

Isso simboliza um momento? Com certeza que sim.

Mas o que se passa neste momento?

Vamos à raiz: o ensino enterrou as humanidades: enterrou o latim e o grego, acabou com a Filosofia, serve a Literatura em concentrados e atirou à ortigas os clássicos,

que podem ser de ontem: por exemplo: Antero e Régio, Afonso Duarte e Aquilino, Tomaz de Figueiredo e Fernanda Botelho, deixaram, de interessar aos irresponsáveis programadores do ensino secundário -já infectados, aliás, pela tal desculturização- que os consideram anacrónicos e impingem autores menoríssimos mas ‘de hoje’, updated que querem estar.

Vamos mais fundo:

ao grande polvo, à sociedade neo-capitalista e globalista (sobre isso, tanto a dizer ou a vontade de repetir o desgosto de Claude Lévi-Strauss, que percebeu, na globalização, a expansão de uma pseudo-cultura formatada e o assassínio da diversidade, singularidade, unicidade!...),
à civilização do mercado, em que o produto vendável e, portanto, rentável, constitui a meta de todos os desejos e esforços,

bastam as pessoas com a bagagem suficiente para preencherem os lugares da grande roda produtora onde são necessários?

Para a sociedade neo-capitalista um homem culto é um inimigo?

E foi esse polvo que foi inventando e impondo as iscas alienatórias, anestesiadoras da inquietação espiritual –a literatura e a arte descartáveis, o grande turismo em cinco dias & etc?

Ou esse programa que chupa e esvazia o cérebro dos homens com uma palhinha indolor, aliciante, não o aceitámos nós, como saída –modo de afastar a necessidade de encontrar um sentido nas coisas?

Não fomos nós que preferimos a dessacralização, desumanização da vida?

Não preferimos, à vida viva, a morte em vida?

Não nos escolhemos mortos-vivos?

Não regozijamos com a neo-escravatura múltipla que o neo-capitalismo instalou e parece estar para durar?

Não refocilamos nele?

Sem comentários:

Enviar um comentário